Não sei numerar a quantidade de vezes que vivenciei situações absolutamente sem sentido no mundo do trabalho. Comitês sem objetivo, políticas bizarras, justificativas esdrúxulas para demissões, entre outras experiências que fariam São Tomé rever seus conceitos.
Foi num aniversário, com ex-colegas de trabalho, que ouvi a história mais maluca sobre compliance que eu já tive conhecimento. O enredo era tão bom que, perto do meu texto ficcional abaixo, ficaria difícil distinguir fato de fake.
Outro aspecto que fisgou o meu olhar de escritora foi a barulheira diária sobre os fins dos tempos anunciados pelos cavaleiros do apocalipse da IA. Para onde eu olho, vejo o fim do mundo chegando, com robôs humanoides prontos para nos exterminar. Tenho certeza que você também está vendo.
E a forma como o mundo corporativo lida com todas essas questões é muito peculiar: protocolos, processos, politicagens, gurus e outros elementos que, se analisarmos direitinho, todo mundo enlouquece.
Foi nesse caldo que este texto implorou pra nascer. Se você é novo por aqui vai estranhar a escolha da ficção como linguagem para abordar a realidade laboral. Trata-se de uma 'brincadeira’ que eu topo eventualmente porque a mão que escreve nem sempre obedece a cabeça que pensa.
Mas vale destacar que, como padrão, esta news é mais opinativa e ensaísta (eu tento, né? *rs) do que ficcional.
Dito isso, te convido a viajar comigo nessa história que é tão inverídica quanto possível de acontecer bem aí, na baia ao seu lado.
No final eu volto com mais observações.
Boa leitura!
—X—
Comitês, gurus e outras criaturas fantásticas
Pelos corredores, o boato do apocalipse empresarial se espalhava.
A nova tecnologia, anunciada com pompa por um jovem CEO, fez os queixos caírem.
Desse dia em diante, não se falou mais em layoff.
Nem em unicórnios, hipogrifos ou testrálios.
Os foguetes começaram a dar ré, mas ninguém percebeu.
Tentei me esconder em alguma reunião importante, um comitê. Não foi difícil.
E ali, ao lado daquele tanto de gente defendendo seus interesses, aguardei minha vez de falar:
"Sim, estou de acordo sobre a criação de um novo comitê"
Ufa.
Nada como uma reunião para decidir que precisamos de uma outra reunião.
Eu queria tempo para pesquisar sobre o tal apocalipse.
Com apenas dois cliques, encontrei:
Linkedin: 5 softskills decisivas para quem vai encarar o juízo final
Instagram: 5 looks incríveis para os fins dos tempos
Tiktok: aprenda a coreografia da música tema da batalha final
Xwitter: #ForaNeymar #TeamLuanaPiovani #LacrouNoApocalipse
Por um momento me senti pronta.
Mas desconfiada das fontes, resolvi ligar para um especialista brasileiro bem conhecido.
"O que você acha?", questionei ansiosa.
Com voz firme, ele disse:

Fiquei em choque. Se ele, uma autoridade no tema, estava afirmando…
Inconformada, liguei para um segundo especialista, um cara das antigas.
Consultor clássico, contador de histórias, certamente vai saber o que dizer.
"Como isso foi acontecer?", perguntei.
E ele respondeu:

Como?
Do nada, recebemos a notícia que tudo estará acabado e ninguém sabe como lidar?
"Tem gente que chora e tem gente que vende lenço"
Disse o pseudo-coach com milhões de seguidores.
Ele estava certo.
Não demorou muito, uma nova indústria começou a surgir.
E nela, dois grupos com posicionamentos opostos, como era de se esperar:
De um lado, as incumbentes tentando manter o status quo:
Aqui nós rimos na cara do apocalipse. Já vivemos isso antes e sabemos o que fazer. Vai custar alguns milhões, a implementação da solução levará de dois a três anos, mas você estará seguro.
Do outro, as insurgentes desafiando até mesmo as ordens divinas;
Esse Senhor representa o atraso da humanidade. Novos problemas exigem novas soluções. Nossa startup, avaliada em 3 trilhões de dólares, tem o que você precisa: mensalidade acessível, gente jovem e a incrível missão de salvar a humanidade.
De que lado estou?
Meu desconfiômetro atingiu índices alarmantes.
Por isso chorei ao receber um email da minha chefe, com a seguinte mensagem:
"Você foi nomeada líder do comitê especial de combate ao fim do mundo empresarial. Parabéns".
Estiquei o pescoço e lá estava ela, me olhando.
Com uma piscadela e um sussurro que interpretei como "agora a sua promoção vem", ela me pareceu confiante.
Eu estava em pânico. Será que eu consigo?
Prudente, decidi envolver o time de compras.
"Olá, aqui é o Raul. Em nome da Gabi Teco, estou entrando em contato para convidar a sua empresa para uma concorrência".
Em cópia oculta, ocultei também o meu alívio.
Ufa. Raul vai cuidar de tudo.
Nem cinco minutos depois, meu telefone toca.
"Gabi, aqui é a Rosângela da empresa JCTL. Recebi agora o pedido de proposta do Raul e queria agendar um almoço com você".
Rapidamente respondi:
"Oi Rosângela, infelizmente eu não posso. A Zuleide está de olho".
Zuleide.
A pessoa mais temida da empresa.
Líder do compliance.
Outro dia, ela me disse que jujubas não estavam em compliance com as políticas corporativas.
Assustada, me desculpei. "Eu não sabia. E nem gosto tanto de jujubas assim".
"Pois não é o que as evidências nos mostram", ela disse com firmeza.
E na sequência, me mandou a cópia de um documento assinado por mim em 2014.
E também prints dos meus stories de 2020, comemorando o mêsversário da minha primeira Covid com o tema jujubas.
Tentei argumentar.
"Era pandemia, Zuleide. Todo mundo ficou emocionalmente abalado nessa época".
Esse foi meu último email. Sem resposta.
Ser ignorada pelo compliance é como ver uma barata no canto do quarto e depois perdê-la de vista.
Você nunca mais dormirá tranquilo.
"Apocalypse :: solution meeting"
Recebi o invite. O tão temido invite.
Raul pediu mais prazo.
Estou com dois headcounts a menos. Um com burnout e outro com dengue", justificou.
Desesperada, abri o power point.
1. Título: Solução para o fim do mundo.
2. Detalhamento do problema:
Dados do IBGE, OMS, FMI, CIA e do Luizão (5 milhões de views/dia, um fenômeno)
3. Implicações do problema para a nossa empresa
- Aspas do especialista 1 + especialista 2 +
- Frase do fundador da empresa dita em 1952 +
- Citação de um guru. Fui de Drucker. Afinal, a cultura come a estratégia…
4. Plano da nossa empresa
- Lista dos dez fornecedores mapeados e aprovados.
- Cronograma do processo de compras, em fase de conclusão.
* Destacar o excelente trabalho feito pelo Raul e sua EUquipe.
5. Agradecimento
Imagem engraçadinha para terminar em alto astral.

Chegou o grande dia. Os membros do comitê pareciam animados.
Mas quando terminei a apresentação, ninguém riu.
O silêncio foi interrompido por Luan, estagiário da Zuleide.
Visivelmente nervoso, o garoto aprendiz de compliance engasgou com o café.
Enquanto isso, minha chefe se agitou e me olhou com um "olhar de primeira vez".
Uma encarada que deixa você confuso e meio sem rumo.
Será que ela não gostou do plano anti-apocalipse empresarial?
Eu deveria ter usado Christensen em vez de Drucker?
Fechei meu computador e, desorientada, vaguei pelos corredores da empresa.
Mas logo chegou um novo invite. Vi no meu smartwatch.
Reunião urgente na sala da diretoria. Corri.
Precisei de um pouco mais de uma fração de segundo para entender o que estava prestes a acontecer.
Sentados, da esquerda para a direita, estavam:
Minha chefe de cabeça baixa.
Zuleide, olhando fixamente para um envelope pardo em cima da mesa.
Luan, manchado de café e sem saber o que fazer com as mãos.
E o Alysson. O mais temido cara do RH.
Alysson Duforti, que carinhosamente apelidamos de Alysson DuCorte.
Onde tem gente sendo demitida, tem o colega Duforti dizendo as últimas palavras:
"Assina aqui. Preciso do seu crachá. O Rubão vai te acompanhar até a porta".
Ainda atordoada, consegui abrir a boca para fazer a única pergunta possível no momento:
"Fiz algo de errado?"
Minha chefe, sem querer entregar demais, disse palavra duras, que ecoam até hoje na minha mente:
"Você foi avisada sobre as jujubas".
—X—
E por aí? Qual foi a situação mais bizarra que você já viveu ou presenciou no mundo do trabalho?
Enquanto edito este texto, uma nova polêmica invade O fantástico mundo do Linkedin: a demissão em massa daquele bancão laranja
Esse é um ótimo case para discutirmos até que ponto um pronunciamento oficial é verídico e até que ponto é cortina de fumaça para esconder a realidade.
Seria a 'baixa produtividade’ a JUJUBA dessa história?
Vou deixar você com essa, porque eu mesma não tenho a resposta.
Ah!
Este é o último texto “de gaveta” que eu deixei programado para sair enquanto estou de licença maternidade.
A minha pequena completou 1 mês na segunda-feira e, antes do seu nascimento, eu achei que a rotina já estaria resolvida no início de setembro. E me enganei lindamente.
A bichinha está crescendo, ganhando peso, mas só dorme no aconchego do meu peito e do meu cheirinho. Ou seja: não consigo me ausentar mais do que 1 hora ou me concentrar em atividades que dependem de concentração profunda, como é o caso da escrita.
E por que eu estou dividindo isso com você? Porque é provável que, se eu não conseguir organizar a rotina até a próxima semana (como é provável que eu não consiga! *rs), o envio dessa news poderá ser suspenso por tempo indeterminado.
Ao mesmo que parte o meu coração, lembro que essa será a última vez que terei uma licença maternidade. De acordo com o nosso planejamento familiar, vamos mesmo encerrar a fábrica por aqui (três tá bom, né? *rs). Então, não quero apressar as coisas.
Não há nada mais importante e urgente do que o choro de um bebê. Especialmente quando é o SEU bebê. =)
De toda forma, não vou encerrar esse provável até breve sem pedir aquela moedinha digital né? Se você gosta dessa news, que tal contar para os seus amigos e pra sua rede?
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