Fui criada para “me virar”. E há 40 anos eu me viro mesmo.
No trabalho, esse perfil é conhecido como “pau pra toda obra”.
O problema é que tem obra toda hora.
Aí o pau, mesmo capenga ou faltando um pedaço, nunca pára.
Tudo seria mais fácil se eu tivesse aprendido a dizer “não vou dar conta, alguém me socorre?".
Essa frase sai fácil da sua boca?
Pergunto pois eu adoraria saber onde vivem e do que se alimentam estes seres humanos.
Porque, no geral, eu noto muita gente se lascando sozinha, com medo do julgamento que um pedido de ajuda pode inspirar.
Ou, como no meu caso, por não saber operar de outro jeito. É como se a opção “pedir ajuda” não estivesse entre as linhas de código do meu software.
Será que tem cura?
Porque se tiver, mesmo que seja um tratamento experimental, eu to topando participar.
Imagina só a manchete:
Cientistas descobrem tilt no cérebro que impede indivíduos de sinalizarem quando estão em apuros. Com apenas um comprimido, tomado pela manhã em jejum, a desordem pode ser 100% resolvida.
Bom demais, né?
Mas enquanto a solução milagrosa não sai, sigo curiosa sobre o que faz algumas pessoas operarem de um jeito absolutamente insustentável, sempre no limite do esgotamento.
Observo alguns movimentos na sociedade que parecem reforçar este sentimento compartilhado por tantas pessoas.
Abaixo, a amostra:
1. Sociedade do cansaço: além de estarmos cronicamente online e sempre disponíveis, há um movimento de glamourização do “estar ocupado". Por que isso acontece?
2. Anestesia social coletiva: quanto mais ocupados estivermos, menos tempo para pensar, sentir e questionar teremos. Se estamos anestesiados, quem seriam os anestesistas da vida contemporânea e por quê?
3. Operação tapa buracos: cansados e anestesiados, o vazio existencial toma conta. O que nos resta? Buscar alternativas de preenchimento (e temos sido bem literais nessa arte, não?)
A seguir, a resenha inteira só pra quem quiser pegar na minha mão e não largar mais.
Vamos nessa?
1.Sociedade do cansaço

Eu, todos os dias
Eu não sei você, mas eu estou sempre com uma sensação estranha de que devo alguma coisa ou esqueci algo importante. O filósofo Byung-Chul Han chama isso de sintoma da “sociedade do cansaço”.
Segundo ele, a gente deixou de ser mandado pelos outros pra virar chefe de nós mesmos. Incrível, não?
Até a gente perceber que estamos nos explorando em tempo integral e sentindo culpa quando não rendemos.
A “boa” notícia? Burnout agora tem explicação filosófica. A má? A gente continua cansado.
Han diz que vivemos no excesso: de positividade, de estímulo, de tarefas, de notificações. Tudo isso enfeitado com o glitter de "faça o que ama" e "seja a sua melhor versão".
Resultado? Gente esgotada, ansiosa e achando que descansar é perda de tempo.
Estar ocupado virou um crachá informal de sucesso. Ou seja, se você está cansado, é porque está vencendo na vida.

Meu novo crachá. Só falta a parte do “estar vencendo na vida"! *rs
O resultado é uma glamourização total do "atolado, porém feliz". A gente virou funcionário do mês de uma empresa imaginária chamada “Eu S/A” e o chefe somos nós mesmos.
E na boa?
E eu sou o pior tipo de chefe que eu poderia ter.

E não são muitas! *rs
Tem algo meio conveniente nesse cansaço crônico: ele ocupa espaço.
Quando a agenda tá cheia, não sobra tempo pra pensar no que realmente importa ou incomoda.
A gente troca as grandes questões existenciais por listas de tarefas e vive no modo avião emocional.
O dia vira uma sequência de “coisar coisas".
Sabe quando vc vai coisando um monte de coisa e nota que ainda tem um monte de coisa pra coisar, e então chega no final do dia e percebe que coisou coisas, mas ainda há muitas coisas a serem coisadas no dia seguinte?
Então, é assim que a vida passa e a gente nem percebe.
Nesse ritmo, a gente se desconecta da gente e do mundo. E fica difícil sentir empatia, se indignar, questionar o que tá aí.
Porque, pra isso, precisa de tempo e presença.
Mas tem gente que não consegue nem ir ao banheiro sem o celular, imagina ter tempo pra encarar as contradições do próprio estilo de vida?
O excesso de estímulo acaba funcionando como um anestésico social que vai silenciando o incômodo, num “scroll” infinito.
Então quem são os anestesistas da vida contemporânea?
Em primeiro lugar, somos nós mesmos, que caímos nessa armadilha toda.
Mas não posso deixar de destacar a ajudinha marota e generosa do capitalismo, da economia da atenção, das redes sociais e dos algoritmos que premiam quem não para e de uma cultura que idolatra o “dar conta de tudo”.
Ah! Também não dá pra passar pano para as empresas que pregam a meritocracia e os coaches-influencers que mandam a gente acordar às 5h, mergulhar em banheira de gelo, passar banana na cara e “vencer”.
Tudo e todos conspirando para a perpetuação de um estilo de vida absolutamente insustentável
3. Operação tapa buracos

Brasileiro comemorando aniversário de 1 ano do buraco da sua rua
Depois de tanto correr e se anestesiar, sobra o quê?
Um vazio que nem sempre grita, mas que está lá, meio difuso, meio silencioso, esperando ser tapado com qualquer coisa que dê a sensação de sentido.
A vida vira uma eterna “operação tapa-buracos”, onde vamos preenchendo os vãos com compras, séries, produtividade, projetos paralelos e tigrinhos, tudo pra não encarar a pergunta: “pra que mesmo tudo isso?”
Então, seguimos com aquela sensação de que algo importante está faltando.
Pausa para um pensamento intrusivo que me ocorreu:
A coisa anda tão séria, que a busca pelo PREENCHIMENTO virou moda, literalmente.
A tal da harmonização facial já é quase um símbolo dessa era: corrigir por fora o que bagunçou por dentro.
E não que cuidar da aparência seja um problema.
O curioso é como a gente anda tentando consertar tudo, menos o que realmente precisa de atenção.

Antes e depois da harmonização facial do Lula Molusco. Gostou do resultado?*rs
> Bônus track: nem todo buraco se resolve com seringa.
Talvez o primeiro passo para sair desse ciclo de cansaço, anestesia e preenchimento apressado seja justamente (re)aprender a pedir ajuda.
Trocar o “me viro” por um “me ajuda?” pode soar pequeno, mas é quase um ato revolucionário numa cultura que idolatra o autogerenciamento e a independência performática.
Como?
Olha, cheguei aos 40 anos e, mesmo depois de mais de uma década de análise, não consegui virar essa chave.
Mesmo usando a razão e tendo consciência de que é IMPOSSÍVEL dar conta de tudo sozinha, me pego repetindo os mesmos padrões de sempre.
Ou seja, seria uma baita hipocrisia terminar esse texto com cinco lições sobre como pedir ajuda e evitar o esgotamento.
Tenho apenas uma pista: escrever é uma forma de elaboração. E elaborar é um ótimo caminho para romper comportamentos repetitivos.
Você deveria tentar (essa é a minha única recomendação, juro!)
Porque nem todo buraco se resolve com seringa, com planner novo, com mais uma aba aberta no navegador ou com mais uma reunião às 19h.
Tem vazio que só se preenche com vínculo, pausa, vulnerabilidade.
—X—
E você? Como tem tentado preencher o vazio? Se for com ácido hialurônico, manda foto que eu quero ver! *rs
Muito cansaço por aí? Alguma recomendação sobre como (re)aprender a pedir ajuda?
Estou por aqui, pronta para ler os relatos de quem responde cartas e ousa ser “à moda antiga".
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Até a próxima

