Se este texto chegou hoje até você, sinal de que a minha filhota está a caminho e que eu me ausentarei por algumas semanas.

Como eu não queria abandonar quem me lê aqui com frequência, adotei uma estratégia 50/50 de conteúdo: 50% original (introduções e fechamentos que estou produzindo enquanto aguardo a chegada da bebê) e 50% reaproveitado do meu acervo.

Considerando que mais da metade dos assinantes conheceram a news nos últimos três meses, é bem possível que os textos mais antigos, publicados quando eu usava apenas o Linkedin como ferramenta, ainda não tenham sido apreciados.

Portanto, a partir de hoje você receberá a coleção Vale a pena ler de novo, que são edições COMENTADAS dos textos que fizeram mais sucesso em 2024.

Vou contar bastidores, inspirações e dividir com você a origem de algumas destas ideias.

Começar essa coleção com “Coletinho, copo Stanley…”não foi uma escolha aleatória.

Além de ter sido o texto mais curtido e comentado no Linkedin, ele tem um significado especial pra mim.

Primeiro porque é um texto com uma narrativa ficcional. Não é sempre que eu me arrisco neste estilo.

Então, quando o conteúdo pede pra nascer e eu acho que a história para de pé, me deixo levar por um estilo de escrita que a gente não vê muito pelo mundo do trabalho.

Segundo porque ele carrega várias situações vividas por mim ao longo da minha carreira, mas que o leitor pode ficar em dúvida se são ou não histórias reais. Eu sempre curti essa sensação. Não sei se é o seu caso…

Aqui, só entre nós, posso te contar que é verdade que:

→ Tive um chefe que me proibiu de escrever emails com mais de duas linhas;

→ Vivi culturas do tipo comando e controle e isso me ensinou demais sobre como a cultura empresarial pode ser usada como desculpa para “adestrar pessoas”;

→ Ruborizar sempre foi a minha resposta fisiológica para tudo o que me tira do meu estado normal; Hoje mais controlada, mas no começo de carreira era impossível disfarçar;

→ Sair do mundo corporativo em 2023 foi uma espécie de libertação para eu voltar a escrever.

Vamos ao texto?

No final eu volto com mais alguns comentários sobre símbolos e significados.

Boa leitura!

—X—

Coletinho, copo Stanley e chapéu de burro

"O próximo email com mais de duas linhas que você me enviar, eu não vou ler"

Nessa hora a minha alma saiu do corpo e foi passear lá no vale dos envergonhados. Peguei meu chapéu de burra, me acomodei no cantinho da sala e pensei:

“Quem você acha que é para falar assim comigo?”

Só pensei mesmo. Ele era meu chefe.

E eu, jornalista e recém-caída de paraquedas na selva corporativa, notei rapidinho que os meus ideais teriam ali a mesma serventia que uma tesoura sem pontas e uma cola de bastão.

Se eu quisesse ser ouvida, teria que me fazer ouvir.

Então, eu me adaptei.

Ou melhor, fui adestrada.

Comando e controle

O comando foi claro: não escreva e-mails com mais de duas linhas.

E assim eu o fiz.

Então, pelo bom comportamento, minha pena foi aliviada.

No semi-aberto, pude escorregar para uma terceira ou quarta linhas sem risco de parar na solitária caixa de não-lidos para sempre.

Até o dia em que eu conquistei a liberdade. Do tipo assistida, é claro.

Porque eu sabia que bastaria uma pisada de bola para os tempos de chumbo voltarem.

Gato escaldado tem medo de água fria, né?

E posso confessar?

Peguei gosto.

“Logo eu, que achava que mudaria o mundo por meio das palavras, quando proibida de escrever, em vez de me perder, me encontrei”

Eu me encontrei numa versão simplificada de mim mesma.

O meu hardware ainda era o mesmo, mas o software mudou para um tipo "lite" e open source.

Eu não notei. Juro que não notei.

Mas aos poucos, palavras do meu software antigo foram sendo substituídas.

Ligação virou call. Orçamento virou budget. E novos termos - como meritocracia e brilho no olhar - passaram a permear meus discursos.

Num dia eu usava "roupa de trabalho" e tomava água engarrafada.

No outro, coletinho puffer-faria-limer e me recusava sair de casa sem meu copo Stanley.

UAU!!!

“Essa coisa de adestramento humano, travestido de cultura organizacional, programável de maneira open, é realmente revolucionário"

A liberdade é boa, mas você já experimentou seguir ordens?

É verdade que, se tudo der certo, o mérito não será seu.

Mas se der errado, olha que maravilha: você tem a quem culpar.

Não há dilemas. Nem angústias.

Viva a simplicidade!

Obsolescência programada

Até o dia que o seu software para de ser atualizado. Foi assim comigo.

Acordei cedo, tomei banho e na hora de vestir o meu coletinho, estranhei. Ele não estava ali na cabeceira da cama. Nem meu copo Stanley.

No lugar, encontrei apenas o meu chapéu de burra.

Aquele mesmo, que eu ganhei no início da minha carreira.

Notei o quão gasto ele estava. E ao olhar mais de perto, quase não acreditei.

Na etiqueta, as letras grandes e vermelhas, advertiam:

Atenção!

Este acessório é parte do kit GabiTeco de sobrevivência ao mundo corporativo e não pode ser vendido separadamente.

Seu funcionamento via bluetooth e geolocalizado, combinado com tecnologias de VR, AIG, wireless e nonstop, dispensa o uso de sua versão física.

A versão virtual deste dispositivo foi incorporada ao seu software lite e seu acionamento acontecerá automaticamente* toda vez que a resposta ao comando for desobedecida.

Ainda estarrecida, porém curiosa, tratei de ler as letras pequenas que acompanhavam o asterisco:

*O acionamento automático pode causar vermelhidão nas maçãs do rosto, de caráter leve a severo, a depender da situação. Também chamado de vergonha, insegurança ou constrangimento, esse efeito adverso só será suprimido quando o dispositivo for desabilitado.

De repente, tudo fez sentido.

Aquele abrasamento da minha face, que acontecia sempre que eu me sentia impelida a desobedecer, discordar ou transgredir as regras, não era voluntário.

O meu chapéu de burra, modelo virtual e disponível 24x7, esteve lá este tempo todo.

Ora me alienando, ora me oferecendo uma pista sutil que algo ainda pulsava dentro de mim.

Bendita seja a obsolescência programada.

A licença do software lite expirou.

O chapéu parou de funcionar por falta de atualização.

Meu coletinho perdeu o ar, murchou, desapareceu.

E meu Stanley virou só um copo mesmo. A água descongelou, junto com o meu corpo.

Escrevo, logo existo

Então eu voltei a escrever.

Passo os dias sendo atormentada por palavras que não combinam em nada com aquela versão simplificada de mim. E também parecem não caber por aqui, na esfera-corp.

No lugar do software lite, que me acompanhou por quase vinte anos, fiz o download de uma nova tecnologia, cuja linguagem eu ainda não domino.

É um recomeço.

Como um animal silvestre que esteve preso por muito tempo e precisa ser reinserido na natureza, me pego pensando sobre:

Essa tal liberdade. O que é que eu vou fazer?

E então fico às voltas com as minhas questões complexas e sentimentos ambivalentes, que encontram na escrita uma saída de emergência.

Posso mesmo pensar os meus pensamentos?

E se eu tomar decisões erradas, a quem eu vou culpar?

Não sei se, nesse momento, estou dentro ou fora da Matrix.

Só sei que aqui não tem email de duas linhas.

Não tem comando e controle.

Não tem call, nem budget nem sentimento de dono.

Perdida de mim, abraçadinha com o meu chapéu de burra aposentado, sinto que prosperei na ignorância.

O mundo corporativo cobrou seu preço.

Tá pago. (Tá pago?)

Agora escrevo para me reencontrar.

—X—

E aí? O que você achou desse estilo narrativo?

O que mais me encanta é oferecer ao leitor a oportunidade de interpretar à sua própria maneira os símbolos e significados “escondidos”ao longo do texto.

Mas, como prometido, aqui eu vou revelar a minha intenção com alguns deles.

Começo dizendo que não tenho nada contra coletinhos e copos Stanley. Tenho até amigos que usam. *rs

Mas essa foi a forma que eu encontrei para simbolizar como o mundo corporativo muitas vezes nos faz agir como um grupo homogêneo, que pensa, fala e até se veste igual.

O controverso é que, o tempo todo, somos incentivados a pensar fora da caixa. A pergunta que fica é: quem nos colocou lá, dentro da caixa?

Já o chapéu de burro me ocorreu porque, antigamente (muito antigamente), ele era de fato um objeto usado em sala de aula para ridicularizar os alunos indisciplinados.

Meu pensamento foi: ora, se alguém me colocasse um chapéu de burro invisível, eu passaria 100% do tempo humilhada, subjugada, tentando me encaixar.

A anedota do email com duas linhas é um bom exemplo disso.

Eu precisei me adequar e não foi gradualmente, com alguém me mentorando. Foi da forma mais direta e bruta possível, como acontece muito no mundo do trabalho.

A reflexão que fica é: quantas vezes, mesmo sendo incentivado a “ser quem você é”, você precisou fazer exatamente o oposto:? Ou seja, agir como se não fosse você para ser aceito pelo grupo e/ou se sentir mais “adequado".

Sim, são muitas camadas.

Mas vou parar por aqui, por dois motivos:

  1. Quero continuar mantendo espaço para suas próprias conclusões e interpretações. É isso que faz da ficção um gênero tão bacana para enriquecer o nosso repertório e o nosso pensamento crítico;

  2. Espero receber dúvidas e comentários sobre este texto. Quem sabe você não se anima e me escreve? Nessa difícil fase do puerpério que estou prestes a entrar, ler as mensagens de leitores pode ser um respiro em meio ao caos. =)

Ah! Antes que eu me esqueça…

O número de leitores dessa news só cresce quando eu faço posts no Linkedin. Como esta atividade deve ficar suspensa por um tempo, é capaz que eu enfrente um longo inverno por aqui….*rs

Se fizer sentido pra você, que tal indicar a Ninguém precisa para alguém? Pode ser um grupo de zap, um post no Linkedin, uma recomendação no Insta (to lá também como @gabiteco.oficial, pode marcar o meu perfil que eu resposto =) etc.

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Obrigada e até a próxima!

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