Passar as férias na casa da minha avó era um ritual aguardado na infância. 

Entre irmãos, primos e agregados, a turma era tão grande, era tanta confusão, que de tédio ninguém morria.

São tantas boas memórias desta fase, que este ano decidi tentar recriar a experiência.

Foi assim que eu vim parar no meio do mato com os meus dois filhos e dois sobrinhos, junto com avós, tias e quem mais quis chegar.

E apesar de fazer só dez dias que estamos aqui reunidos, já dá pra concluir que era muito mais legal vivenciar essa experiência como criança do que como adulta.

Enquanto durarem as férias, durarão também as pálpebras tremendo

As crianças estão ótimas. Correndo, brincando, comendo laranja do pé e sendo livres.

Já os adultos…

Vou falar por mim. Passo metade do dia dizendo frases como “não mexe aí", “devolve o brinquedo dele", "deixa os patos em paz”...

E a outra metade eu passo…bom, repetindo as mesmas frases, num looping infinito de alerta e tensão, tentando evitar que alguém se machuque.

Quando finalmente eles dormem, eu sento aqui para escrever e concluir poucas atividades profissionais que eu achei que daria conta tranquilamente.

Claro que me enganei.

Foi então que, cansada do caos e querendo ter mais previsibilidade dos meus dias, uma ideia genial” me ocorreu:

Por que não organizar um cronograma de atividades com eles? Assim, a gente separa a hora de brincar, de comer, de relaxar…

Abri o Excel, respirei fundo e, mesmo antes de formatar a primeira célula, notei o quão ridícula eu estava sendo. 

O impulso de organizar o caos com tabela e cronograma não veio do mato. Veio da firma. 

Da parte de mim que ainda acha que qualquer bagunça precisa de pauta e planejamento.

Fechei o Excel, pedi desculpa mental à minha vó e fiquei aqui, às voltas com os meus pensamentos.

Incrível a facilidade com que a gente transforma qualquer momento em processo, esvaziando rituais que deveriam ser vivos, flexíveis, afetivos. 

Na minha infância, as férias em família tinham sabor, barulho e ritmo próprios. 

Tinha o bolo de chocolate da vó Ilda, crianças tomando banho em duplas para gastar menos água, fabricação de pipas em série (eu ficava sempre na estação da rabiola), entre outras coisas legais.

A foto é da internet, mas de diferente o bolo da minha avó só tinha o tamanho da forma, que era enorme. Ela fazia assim desse jeitinho: massa de chocolate, com cobertura de chocolate, mas nada de leite condensado. Era aquela calda “raiz": leite, chocolate em pó, manteiga, açúcar e MUITA paciência para esperar reduzir e reluzir. Comíamos assim mesmo, da forma direto para o guardanapo, para não sujar prato.

Nada era planejado como ritual. Mas tudo se repetia com tanto afeto, que virou tradição. Um roteiro imaginário que organizava nossa pequena sociedade temporária.

É verdade que rituais são elementos importantíssimos na criação e na manutenção de uma cultura forte.

Mas o que pouca gente diz é que alguns rituais não fortalecem a cultura. Eles cristalizam disfunções.

Penso nos rituais oficiais da firma, cheios de boas intenções, mas muitas vezes esvaziados de sentido.

E a gente vai repetindo, sem nem perceber, com um crachá no peito e um script na mão.

Então, no embalo da reflexão e da saudade do bolo da vozinha, organizei (sem Excel, prometo) o cardápio afetivo de hoje:

  1. O bolo é o símbolo. Fazer o bolo é o ritual. E pra que servem os rituais?

  2. Repetir a receita no automático. Por que aderimos aos rituais sem questioná-los?

  3. Quando o bolo murcha e ninguém percebe. Dá pra mudar? Como? Em que momento os rituais precisam ser atualizados?

—X—

1. O bolo é o símbolo. Fazer o bolo é o ritual. E pra que servem os rituais?

Na cultura, rituais são marcação de tempo. Uma forma de dizer: “algo está acontecendo aqui”. 

São portais simbólicos que nos ajudam a atravessar momentos, transformar papéis, relembrar quem somos, mesmo quando tudo em volta muda.

O antropólogo Arnold Van Gennep, no livro Os Ritos de Passagem, chamou atenção pra isso. 

Segundo ele, rituais verdadeiros envolvem três fases: separação, transição e reincorporação. A pessoa sai de um lugar, atravessa uma zona de ambiguidade, e retorna transformada, com novo status social ou simbólico.

Batizado, festa junina, missa de sétimo dia, roda de capoeira, pagode no fim da obra. O que importa não é a forma exata, mas o sentido compartilhado.

Na firma, os rituais também tentam marcar tempo: onboarding, happy hour, café com o CEO, (complete aqui o seu preferido!)…

Se você ainda não conhece o Caio e não segue o perfil @la_nafirma no Instagram ou no Linkedin, promete pra mim que vai procurar depois que ler essa news? Um dia faremos uma collab. O Caio só não sabe disso ainda. *rs

Mas muitas vezes o “algo está acontecendo” vira só “algo precisa parecer que está acontecendo”.

A travessia se perde. O ritual vira gestão de percepção. Nenhuma transformação simbólica, nada.

Enquanto na cultura o ritual acolhe a complexidade, na firma até o sentimento é padronizado.

Talvez o rito mais urgente nas empresas hoje não envolva balão, slide ou brinde.

Talvez seja só sentar junto e perguntar com honestidade: “o que a gente está tentando sustentar aqui?”

A resposta pode te surpreender.

2. Repetir a receita sem questionar. Por que aderimos aos rituais sem questioná-los?

Porque é mais fácil.

Porque o grupo já está fazendo.

Porque ninguém quer ser o chato que levanta a mão no meio da celebração e pergunta: “vocês também acham isso aqui meio bizarro?”

A gente adere a rituais porque eles oferecem algo valioso: pertencimento imediato.

Brené Brown, autora do livro “A coragem de ser imperfeito", diria que somos biologicamente programados pra buscar conexão.

Já Daniel Kahneman, autor de “Rápido e devagar”, simplificaria ao dizer que é só economia mental: seguir o fluxo exige menos esforço do que pensar criticamente.

Mas de vez em quando, a gente interrompe o script.

No meu casamento, por exemplo, não teve padre, pastor, nem celebrante profissional.

Minha amiga Mary e o Rafa, amigo do meu marido, celebrando o nosso casamento em 2013. Foi simples e emocionante, do jeito que a gente imaginou.

Naquela época, nem eu nem meu marido tínhamos uma religião específica. Então convidamos dois amigos, um de cada lado, pra nos abençoar.

Um ritual simples e simbólico. E, talvez, por isso mesmo, profundamente verdadeiro.

Não teve rito tradicional, mas teve rito real. E ninguém saiu de lá achando que faltou algo.

Acho que é por isso que questionar rituais não me assusta. Me assusta mais segui-los no piloto automático.

Talvez a maior prova de que um ritual está falido seja essa: ninguém acredita mais, mas todo mundo continua fingindo que sim.

3. Quando o bolo murcha e ninguém percebe. Dá pra mudar? Como? Em que momento os rituais precisam ser atualizados?

Dá. Mas primeiro vem o desconforto.

A gente só muda um ritual quando a repetição começa a doer mais do que a ruptura.

No livro As Intermitências da Morte, José Saramago imagina uma distopia simples: a morte decide parar de matar.

No começo, parece um milagre. Mas logo o mundo colapsa.

As funerárias quebram. Os hospitais não sabem o que fazer com tantos doentes. As famílias entram em pânico.

A ausência da morte desorganiza tudo. Porque, sem ela, os rituais também perdem o sentido.

Foto do meu acervo pessoal. Depois de me encantar com “Ensaio sobre a Cegueira", tive a sorte de participar de uma leitura de “As intermitências das morte” em 2008, que contou com a presença do autor. Eu e minha amiga pegamos uma fila quilométrica só para garantir este autógrafo, que considero uma relíquia. Saramago faleceu em 2010 e, se não me falha a memória (não consegui confirmar no Google), essa visita de 2008 foi a última dele ao Brasil.

Saramago não está falando só da morte. 

Está falando da ordem invisível que sustenta a vida. E de como a gente se desorganiza quando descarta um ritual antes de saber o que colocar no lugar.

Na firma, o risco é parecido.

O ritual falido permanece, não por falta de ideias, mas por falta de coragem pra dizer que ele já não serve.

A mudança só vem quando alguém decide enfrentar o incômodo de apontar o elefante branco no meio da sala.

E assim, sem muita pompa, abre-se espaço para um novo ritual começar.

Há esperança?

Topa participar de uma enquete chamada “Rituais que não deveriam existir?". Vale da firma ou da vida. Eu começo e trago polêmica: chá revelação. Eu vou me limitar a dizer que eu acho bizarro e sem sentido. Respeito, participo, mas não coopero e nem promovo. E você?

Talvez a gente precise, sim, reinventar alguns rituais.

Mas não no sentido de criar algo novo a cada ciclo, e sim de recuperar o que dá sentido ao que se repete.

Fico pensando no bolo da vó Ilda. Ela fazia sempre do mesmo jeito, mas nunca era só um bolo. Era um anúncio delicioso de que as férias começaram.

Um sinal de que estávamos juntos, outra vez. 

O cheiro que marcava a passagem de um tempo acelerado para um tempo nosso.

Acho que é isso que os rituais da firma estão esquecendo: que o verdadeiro rito pede presença, não performance. 

O tipo de presença que eu também preciso para escrever e enviar essa news toda santa quarta-feira.

Te escrever já virou um ritual que, além de me ajudar a entender as minhas passagens, pode simbolizar um convite semanal para pensarmos juntos o mundo do trabalho.

Basta você aceitar o meu “invite recorrente”! =)

—X—

Se você não leu a legenda da última foto, retomo aqui a minha sugestão de “enquete da semana": que ritual, cultural ou corporativo, você acredita que não deveria existir e por quê? (É só clicar em “responder", se você estiver lendo no e-mail)

Faço esse convite porque além de uma chance de dar boas risadas (meus leitores são maravilhosos e têm um senso de humor refinado! *rs), tenho certeza que pensar sobre isso pode te ajudar a enxergar coisas que você anda repetindo por aí, mesmo sem ver sentido.

Eu falei do famigerado chá revelação, né? E olha só o que eu descobri ao pesquisar o ritual para esta news: nem mesmo a “criadora” do tal ritual está orgulhosa do rumo bizarro que as coisas tomaram. E eu não vou guardar essa informação só pra mim, é claro! Leia aqui.

Quero encerrar agradecendo mais uma vez aos leitores que seguem indicando essa news. Se for seu caso, meu MUITO OBRIGADA.

O gráfico do número de novos assinantes voltou a ser uma curva ascendente, depois de ter enfrentado um longo inverno andando meio de lado. 

O link de assinatura vai ficar fácil aqui, ó: https://ninguemprecisanewsletter.beehiiv.com/

Vai que hoje é meu dia de sorte e você, que nunca recomendou nem sabor de bolo na padaria, resolve me recomendar num grupo de zap ou pros amigos da firma? *rs

Até a próxima!

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