“O que você achou do caso de infidelidade que viralizou no show do Coldplay?", meu cunhado me perguntou no almoço de domingo.

Embora este assunto tenha dominado a pauta durante toda a semana, ele foi a primeira (e única) pessoa que realmente pediu a minha opinião.

A minha resposta? Pouco importa, por dois motivos:

1. Você não perguntou (e arrisco dizer que já cansou de ler as mesmas coisas sobre esse caso)

2. Foi a pergunta dele que me fez pensar em algo de valor para compartilhar com o mundo. 

Sim, eu sou a do contra, a chata, a voz dissonante da sala.

Se está todo mundo concordando demais, serei a inconveniente que levantará a mão e dirá:

“Mas e se…”

E aí pode vir uma ideia louca, uma hipótese infundada, uma verdade inconveniente ou uma pergunta genuína, do tipo: “e se algo estiver nos escapando?”.

E agora eu te pergunto: o que nos escapou, querido leitor / querida leitora?

Será que nos escapou o fato de que estávamos todos mais interessados no espetáculo do que na complexidade da situação?

Porque vimos acontecer uma hecatombe de conteúdo em torno de uma única história.

História essa que conhecíamos muito pouco mas que, após um já esperado escrutínio público, novas camadas foram reveladas.

E o Linkedin foi a loucura quando notou que a notícia tinha potencial para extrapolar os perfis de fofoca e ganhar ares de “educação corporativa" na rede.

Bastou descobrirem que os sujeitos envolvidos na situação eram executivos de uma mesma empresa e BOOOOM: a chuva de posts começou a cair violentamente sob nossas cabeças.

E eu, fiquei como? Obcecada, é claro. 

Aí o algoritmo fez o que ele mais sabe fazer. Me serviu mais, e mais, e mais…

Até eu ter certeza que tínhamos todos enlouquecido.

Vi de tudo. Com certeza você também viu. 

Posts sobre ética, liderança, compliance, trabalho presencial versus remoto, piadas de mau gosto e até marcas tentando tirar uma casquinha.

A pergunta é: a quem interessava tais pontos de vista?

E mais do que isso: qual a serventia de tanta lição de moral, #pelamor?

Mas calma!

Prometi dividir com você um fenômeno, né? 

Quero te apresentar o conceito de VIRALISMO de dois psicanalistas que eu acompanho: Andre Alves e Lucas Liedke (já indiquei eles por aqui. No fim da news, coloco os links).

Assim, será possível entender um novo fenômeno psicológico, que explica o viral da semana por uma lógica que já era observável nas redes sociais e que, agora, está cada vez mais presente no Linkedin.

E para explicar o viralismo e suas consequências para o mundo do trabalho, vou precisar que você:

  1. Segure a minha mão.

  2. Confie no processo (isso ainda é uma news sobre o mundo do trabalho, não desista!)

Dá uma olhada no nosso maravilhoso cardápio do dia:

  1. O que é viralismo

  2. A engrenagem do viralismo

  3. Impactos no mundo do trabalho

  4. Os perigos de uma única história

Bora?

—X—

1. O que é viralismo?

Quem nunca se pegou abrindo o Instagram, agindo no automático, como quem se belisca para ter certeza que ainda existe no mundo?

Quando eu era criança, a única coisa que a gente abria no piloto automático era a porta da geladeira

Tem algo estranho na forma como a gente tem buscado se reconhecer.

É como se, sem um post ou uma participação digital qualquer, a gente fosse perdendo a relevância e sumindo aos poucos.

É esse o efeito do que Alves e Liedke chamaram de viralismo, um modo de viver em que a lógica da internet passou a organizar não só o que fazemos, mas quem somos.

VIRALISMO é medir o valor das pessoas de acordo com sua performance nas mídias sociais(...). Os marcadores de desempenho online passaram a determinar não só o valor do nosso conteúdo, mas o nosso valor no mercado.

Andre Alves e Lucas Liedke (tem episódio de podcast e news no Substack)

O problema é que esse modo de existir exige presença contínua e nos pressiona a entrar no assunto da vez mesmo quando não temos nada de relevante a dizer.

A equação é simples e cruel: quem aparece mais, vale mais.

E é aplicável pra tudo: carreira, amor, política, autoestima. Se viralizou, então deve ser relevante. Será?

No fundo, muita gente sente que precisa fazer render porque o algoritmo nos treinou a transformar tudo em oportunidade. 

Mas pouca gente fala das consequências.

2. A engrenagem do viralismo

O viralismo não é só um nome bonito pra falar de internet. Ele é uma engrenagem com várias peças.

Por isso, antes de achar que é só um exagero conceitual, vale entender os quatro elementos que sustentam essa lógica como modo de vida, segundo Alves e Liedke:

2.1 O sonho da mega escala

A lógica do viralismo começa por uma promessa: a de que qualquer pessoa pode ser notável, desde que conquiste uma audiência grande o suficiente.

“Que show da Xuxa é esse?". Quem ainda lembra deste viral de 2024?

Não importa se você é dentista, designer ou diretora de RH. Em algum momento, essa ideia te atravessou: “eu devia estar aparecendo mais”. Visibilidade virou um critério de existência.

O nome disso é sonho da mega escala.

Uma crença silenciosa de que, se milhões de pessoas não viram, então não valeu tanto.. 

E isso não se desfaz com frases prontas como “o que importa é a vida offline” ou “número não é tudo”. No fundo, a maioria de nós já internalizou a lógica: quem aparece mais, vale mais. Quem viraliza, vence.

É por isso que estamos todos nesse grande palco de presença contínua. Sempre on, atentos, competindo por atenção, mesmo sem admitir.

Mas a busca por visibilidade não anda sozinha. Ela caminha ao lado de uma engrenagem ainda mais urgente: a tensão.

Quanto mais gente disputando atenção, mais barulho é preciso fazer para ser ouvido. E é assim que a lógica do viralismo desemboca no seu segundo elemento: a economia da tensão.

2.2 Economia da tensão

Se antes a internet parecia um lugar de troca de ideias, hoje ela se parece mais com uma arena de reações. 

Como descrevem Alves e Liedke, essa lógica se manifesta quando “o objetivo da comunicação não é mais necessariamente informar, explicar ou até educar, mas sim incitar reações”. Ou seja, não importa se faz sentido, desde que faça barulho.

Sim, isso aconteceu e foi uma das coisas mais bizarras e chocantes que eu já vi uma pessoa pública fazendo por um like

Como isso aconteceu?

A teoria da economia da atenção, formulada nos anos 1970 por Herbert Simon, previa que, num mundo com excesso de informação, o recurso mais escasso seria a atenção humana.

Mas ninguém previu que, ao invés de qualidade, o critério para captar essa atenção seria o choque.

Nas palavras dos psicanalistas: “a indústria cultural vem fazendo a sua aposta em temáticas e ângulos capazes de despertar fúria, pânico e/ou aversão”.

Por isso, hoje, falamos em economia da tensão.

É quando todo conteúdo precisa gerar atrito pra existir. E, quanto mais inflamado, melhor. 

O problema? A briga raramente se resolve. O embate vira ciclo, meme, multiplicação de réplicas. Um conflito que se retroalimenta, como se o objetivo fosse nunca cessar.

“Vale tudo mesmo pelo repost?”

Essa pergunta dos autores toca num ponto sensível: opinar sobre os fatos marcantes do dia pode, sim, ser uma forma de elaboração. 

Mas o que estamos vendo é outra coisa. É o uso deliberado da tensão como estratégia de engajamento. E isso tem um custo.

Porque, no meio desse ruído todo, a gente corre o risco de se tornar indiferente ao contexto, insensível à complexidade e incapaz de escutar qualquer coisa que não provoque imediatamente um sentimento de raiva ou indignação.

2.3 Cyphoria

Mas o viralismo não para por aí. Quando curtidas viram sinal de genialidade, entramos num terreno ainda mais nebuloso: o da Cyphoria.

Os autores chamam de Cyphoria aquele estado de confusão coletiva, típico da era digital, onde perdemos a noção do que é real e começamos a agir como se a internet fosse a própria realidade.

A palavra junta “cyber” com “disforia”, um termo da psiquiatria que descreve estados de irritação, angústia e oscilação de humor. 

Quanto mais inseguros estamos sobre o que é real, mais nos agarramos a qualquer versão que pareça causar efeito. E isso explica por que dobramos a aposta no viralismo: porque, se eu não entendo o mundo, pelo menos quero que ele reaja a mim.

Essa necessidade de se afirmar diante do caos tem tudo a ver com o próximo sintoma do nosso tempo: a exibição de si como forma de validação.

2.4. O estádio da selfie: 

Segundo o Urban Dictionary, selfie é “uma imagem de si mesmo tirada por si mesmo”, uma definição vaga, mas que traduz bem como ela se tornou uma peça fundamental da cultura das mídias sociais.

Ela não é só uma foto, é a produção e divulgação da nossa autoimagem idealizada, amplificada, manipulada por nós mesmos. 

“Seu Madruga", se tivesse rede social

É um gesto que, de certa forma, lembra uma fase essencial do nosso desenvolvimento psíquico chamada estádio do espelho, descrita pelo psicanalista Jacques Lacan em 1938.

O estádio do espelho é quando, ainda bebês, começamos a construir uma imagem do nosso “eu” ao nos reconhecermos refletidos no espelho. Um momento de formação da identidade que é ao mesmo tempo narcísico e fundamental para o psiquismo.

Mas o que acontece quando essa dinâmica acontece numa velocidade alucinante e com a pressão para viralizar e conquistar o sonho da mega escala? 

Nas redes sociais, essa “repetição do espelho” se transforma no que os autores chamam de estádio da selfie, um ciclo quase neurótico de construir, desconstruir e buscar a nossa versão mais “genuína” enquanto navegamos entre versões idealizadas, máscaras e personagens.

Nesse processo, ficamos presos a um nó: a busca pela autenticidade.

Ser “real” virou moeda cultural de altíssimo valor. Só que, muitas vezes, essa busca vira justamente o oposto. 

Performamos versões de nós mesmos que não são reais e que, mesmo assim, são aprovadas, curtidas e compartilhadas como se fossem. 

E, no fim, acabamos nos frustrando não porque a vida não é autêntica, mas porque estamos presos a um ideal digital que sacrifica a realidade em nome da performance e do prazer imediato.

3. Os impactos no mundo do trabalho

A história do CEO e da diretora de RH no show do Coldplay viralizou tão rápido que virou uma tempestade de posts, debates e textos.

Avalanche de memes em referência ao casal flagrado pela Kiss Cam

Mas se a gente olhar com cuidado, a maioria dessas reações foi mais barulho do que argumento consistente. Textos surreais, opiniões fortes que falavam muito, mas diziam pouco.

Esse é um exemplo claro do viralismo em ação no mundo corporativo: aquela pressão constante para entrar no assunto da vez, posicionar-se, produzir conteúdo sobre o que “todo mundo está falando”.

Não importa se o tema está realmente conectado com o seu trabalho, com a sua realidade ou com sua visão profunda sobre o assunto. 

A urgência é estar presente, fazer parte da conversa e, de preferência, tirar algum benefício disso.

Nesse cenário, o viralismo impõe efeitos concretos:

  • Pressão por opinião imediata: Profissionais e líderes sentem a necessidade de se posicionar rápido, antes que a “janela de relevância” se feche, mesmo que não tenham realmente algo sólido para contribuir;

  • Conteúdo raso, mas abundante: Como numa enxurrada de posts no LinkedIn semana passada, o que vimos foram análises superficiais, feitas no calor do momento, que nem sempre acrescentam valor real, mas alimentam a máquina da atenção;

  • Confusão entre exposição e autoridade: Muitas vezes, quem grita mais alto, mesmo com menos embasamento, domina o debate. E isso afeta a percepção sobre quem “entende” ou “lidera” temas relevantes;

  • Impacto na cultura organizacional: Quando a viralidade vira meta, o foco em profundidade e em processos consistentes pode ser perdido, e a cultura da empresa pode se tornar refém do espetáculo, da opinião fácil e do julgamento público;

  • Aumento da ansiedade e do medo de perder espaço: Todo mundo corre para se posicionar, para não ficar fora da conversa, o que gera desgaste e, muitas vezes, autossabotagem, afinal, produzir para a viralidade pode virar uma fonte de estresse constante.

No fim, o que vemos é um ambiente mais ruidoso, menos reflexivo, e perigosamente orientado pela performance.

A pergunta que fica é: o que estamos realmente ganhando com essa corrida pela viralidade?

E o que estamos deixando de ver enquanto estamos distraídos com o barulho?

4. Os perigos de uma única história

Chimamanda Ngozi Adichie, em seu famoso TED Talk “O perigo de uma única história”, nos alerta para o risco de entendermos pessoas, culturas e situações a partir de uma única narrativa simplificada. 

Uma história que, por ser repetida e amplificada, vira a verdade absoluta.

No mundo do trabalho, essa lógica de viralismo potencializa justamente essa tendência: histórias únicas, muitas vezes superficiais, ganham espaço e se tornam incontestáveis.

Voltando ao episódio do CEO e da diretora de RH, vimos como um caso complexo foi rapidamente reduzido a uma coleção de julgamentos, opiniões simplistas e discursos prontos sobre temas variados.

Essas “únicas histórias” podem fazer com que perguntemos menos e julguemos mais, que construamos verdades parciais e até equivocadas sobre pessoas, empresas e situações.

O viralismo, ao nos empurrar para esse tipo de narrativa, cria um ambiente onde a complexidade se perde em favor da facilidade, e profissionais e líderes ficam presos a estereótipos e expectativas limitadas.

O debate verdadeiro, que exige tempo e atenção, é substituído por reações rápidas e polarizadas.

Chimamanda nos lembra que conhecer múltiplas histórias, perspectivas e contextos é essencial para uma compreensão real e humana, e isso é especialmente urgente no ambiente corporativo, onde decisões e relações impactam vidas.

No fundo, o desafio para nós, executivos e profissionais, é resistir à tentação do simplismo viral e buscar uma postura mais crítica, empática e reflexiva.

O que importa mesmo não é ter a última palavra, mas ter algo que valha ser dito. 

Mesmo quando ninguém pergunta.

—X—

Se ninguém te perguntou, faço questão de ser a primeira: o que você achou da repercussão desse caso no Linkedin?

O que NÃO foi dito, na sua opinião?

Antes de me ocorrer a ideia de tema para essa edição, eu tentei tecer uma breve crítica sobre o assunto no “O fantástico mundo do Linkedin", boletim que eu solto toda sexta-feira lá na rede. Se você ainda não conhece, fica aqui o link pra ler e o convite para acompanhar por lá.

Para se aprofundar no tema do viralismo e acompanhar o trabalho do Andre Alves e do Lucas Liedke, recomendo fortemente o podcast Vibes em Análise e a news do Floatvibes no Substack.

O link direto para o episódio sobre viralismo está aqui e o texto de introdução do substack aqui.

Nunca viu o TED da Chimamanda? Vamos resolver isso já. O vídeo é de 2009 mas segue atual e entre os meus preferidos.

Pra finalizar, agora é oficial: minha hora de parir a Lara está chegando. Estou completando 37 semanas e, a partir de agora, tudo pode acontecer.

Como vou aguardar que ela venha bem e no seu tempo, não da para prever a data da sua chegada. Por isso, também não da para planejar o que fazer com essa news neste entre tempos.

Resolvi avisar porque, caso eu suma nas próximas semanas, você já terá uma boa pista do que pode ter acontecido.

Eu tenho planos de não parar a produção de conteúdo. Porém, depois que me tornei mãe, precisei encarar a seguinte realidade: nossos filhos não estão nem aí para os nossos planos. Então, vou deixar esse assunto em aberto por enquanto.

Até a próxima semana (ou não! *rs)

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