Influenciadoras no assunto maternidade são o novo hiperfoco do meu algoritmo. Sim, ele já entendeu que estou com uma recém-nascida (RN) em casa e, portanto, insiste em me afogar em dicas 'valiosas’ sobre sono, amamentação e pingentes feitos com leite materno (sim, isso existe e eu acho um tanto esquisito).

O algoritmo só não entendeu que sou mãe de terceira viagem. Ou melhor, mãe "sênior”de RN. E a experiência acumulada me ajuda a separar conteúdo bom do que é conteúdo-enganação.

O que me faz pensar sobre esse tanto de influenciadores que, mesmo sabendo que seus infoprodutos são ruins e enganosos, seguem vendendo como se fossem pílulas milagrosas para pessoas desesperadas.

Desespero. Era o que eu sentia ao não conseguir fazer o meu primeiro filho dormir. Perdi madrugadas sacudindo-o freneticamente em meu colo, segurando-o pela barriguinha e fazendo SHHHHIIIIII em si bemol, e nada. O menino seguia aos berros.

O que eu fiz? O que qualquer mãe com Instagram faria, claro. Comprei um curso que prometia ensinar como fazer o bebê dormir no berço em poucos passos.

Resolveu? Claro que não. Como quase nunca resolve. Continuei com um bebê chorão, que apelidei de Roberto Carlos pelos shows que ele dava no período da noite, e fiquei alguns reais mais pobre. Não fui nem a primeira e nem a última mãe inexperiente, enganada por uma “guru do sono".

Isso quer dizer que todos os infoprodutores são charlatões? Claro que não. Eu mesma faço parte dessa classe e respeito as pessoas que vivem de curadoria e do bom conteúdo.

Mas como este é um tema complexo e cheio de camadas, claro que eu já pensei profundamente sobre ele. E foi a partir dessas reflexões que o texto “Eu quero ser TopNada” surgiu.

A seguir, a reprodução editada do texto original.

Volto no final com comentários adicionais.

Boa leitura!

—X—

Eu quero ser TopNada, influencer de coisa alguma

Esse texto tirou o meu sono. Talvez porque, na essência, ele expressa toda a minha contradição: da pessoa que escreve para ser lida, mas que morre de medo de ser TopAlgumaCoisa.

Tá com preguiça? Aqui está o resumo do raciocínio que me levou a essa conclusão.

  1. Vivemos em tempos de hipervalorização do sujeito que fala;

  2. Consumimos passivamente enxurradas de conteúdos, mas aprendemos cada vez menos;

  3. Isso nos torna piores ouvintes e piores aprendizes;

  4. Como consequência, nosso pensamento crítico está cada vez mais enviesado e comprometido;

  5. Somos cobrados para nos posicionar, produzir conteúdo e influenciar

  6. Resultado = produção de conteúdo cada vez mais pobre, que retroalimenta o sistema.

Tem um tempinho aí?

Vem comigo.

1. Vivemos em tempos de hipervalorização do sujeito que fala.

A tal da creator economy, um mercado que já movimenta mais de US$ 250 bilhões no mundo segundo a Goldman Sachs Research, está crescendo rapidamente no Brasil.

Os dados ainda são desencontrados, mas há fontes afirmando que são 20 milhões de brasileiros trabalhando direta e indiretamente na dita economia criativa.

E se você ainda não faz parte dessa estatística, afirmo sem muito medo de errar:

Ou você está sendo cobrado para se posicionar nas plataformas digitais ou está sendo influenciado de alguma forma. Não tem pra onde correr.

No meio artístico, por exemplo, são inúmeros os relatos de atrizes e atores experientes que perdem papéis por não possuírem um número razoável de seguidores nas redes sociais.

Já pensou se essa moda pega na corp-esfera?

Ou será que já não pegou?

Outro dia um amigo meu, profissional superqualificado, reclamava sobre estar perdendo espaço no segmento de palestras para os influenciadores corporativos. Como especialista e autor best-seller, os eventos empresariais são uma importante fonte de receita que, aos poucos, ele vê minguar.

"Não estou generalizando, muitos merecem o destaque que recebem. Mas tem muita gente ruim falando bobagem e me surpreende os contratantes não notarem a diferença", me falou em off.

O que me leva ao segundo ponto.

2. Consumimos passivamente enxurradas de conteúdos, mas aprendemos cada vez menos;

Que as redes sociais usam o nosso sistema clássico de reforço e recompensa, o mesmo ativado por vícios em drogas e jogos, por exemplo (em outras proporções, é claro), disso ninguém mais tem dúvida, certo?

Mas e se eu te disser que é bem provável que as redes também estejam mobilizando o nosso sistema dissociativo?

Bom, eu não, os pesquisadores. O relato a seguir é um resumo de um trecho do podcast Inteligência ltda, episódio 1048 com Eslen Delanogare e Jan Leonardi, onde eles falavam sobre os efeitos da tela em nossas vidas.

Primeiro e mais importante, todos nós usamos o sistema dissociativo de forma ativa e consciente. Quando estamos estressados e resolvemos, por exemplo, assistir a um filme. O que acontece dentro da gente é que o nosso cérebro afunila a sua atenção naquela atividade e a gente para de pensar nos problemas.

O interessante é que o afunilamento do processo atencional provoca também uma dilatação temporal. Ou seja, o tempo passa e você perde a noção dessa passagem.

Isso é um estado dissociativo clássico.

Mas veja só que interessante. Quando o cérebro está operando nesse modo uma consequência relevante é você não lembrar o que viu. A memória fica fragmentada.

E uma pesquisadora mostrou em um estudo recente - ainda não publicado pois está passando por avaliação dos pares - que esse comportamento acontece exatamente assim lá naquela rede que mudou de nome, sabe?

Nos testes, a cada X (pegou? hahaha) minutos, aparecia um pop-up para o usuário responder o que ele tinha acabado de ler nos posts anteriores.

Adivinha só?

A maioria não se lembrava.

É legal quando a gente vê a ciência caminhando para comprovar o que, na prática, a gente já vê acontecendo com a gente, né? Ou você vai me dizer que lembra de tudo o que vê por aqui diariamente?

Isso só me prova duas coisas (por enquanto):

  1. Que eu acertei em cheio no nome dessa news. Você não precisa dela. Porque muito provavelmente também não lembrará do que está escrito aqui;

  2. Embora estejamos AFUNDADOS num mar de conteúdos, nossa capacidade de aprendizado está cada vez mais comprometida.

O que me leva ao terceiro ponto.

3. Isso nos torna piores ouvintes e piores aprendizes.

As nossas capacidades de ouvir e aprender, que já não andavam muito bem, ficam ainda mais ameaçadas nesse contexto onde estas duas forças se somam:

De um lado a economia criativa, que hipervaloriza o sujeito que fala e acaba deixando de fora (ou empurrando para atividades de bastidores) uma esmagadora maioria que se intimida com os holofotes; e do outro, o comportamento dissociativo, onde investimos horas vendo/ouvindo coisas, mas aprendendo pouco ou quase nada.

Isso abre um espaço ainda maior para discutirmos o conceito da economia da atenção, que escancara o desafio crescente que temos em capturar o tempo de concentração do outro.

"Gabi, melhora a escaneabilidade dos seus textos", ouço a voz de um grande amigo - ótimo nessa arte - ecoando aqui na minha mente. Ele tem razão. Se eu quiser ser lida por aqui, preciso considerar as novas técnicas.

Mas confesso que toda vez que eu tento seguir a lógica dos 2 segundos num vídeo ou da primeira frase de impacto em um texto eu me sinto um senhor de 68 se vestindo como um adolescente. É funcional. É. Mas é autêntico? Se o senhor for o Sérgio Mallandro, por exemplo, sim (ele tem 68 anos mesmo, por isso meu exemplo). Mas é autêntico pra todo mundo?

Você não é todo mundo, já diria a minha, a sua, e todas as mães do planeta.

O que me leva ao quarto ponto.

4. Como consequência, nosso pensamento crítico está cada vez mais enviesado e comprometido

Se ouvíssemos a sabedoria materna, nosso pensamento crítico não estaria em crise. Afinal, não é porque todo mundo escreve uma frase de impacto na primeira linha do texto para conseguir audiência que eu também preciso escrever, certo?

Errado.

A não ser que você não queira ser lido.

Aí…socorro. Preciso de ajuda aqui ó.

Pensa comigo.

Se para te "capturar" eu preciso escrever de um jeito que o seu cérebro me permita entrar na sua vida, eu estarei escrevendo como todo mundo.

E lembra lá do sistema de reforço e recompensa? Pois é. É bem provável (e os algoritmos sabem disso melhor que a gente) que você esteja clicando em conteúdos que reforçam as suas crenças, pois isso ativa seu sistema de recompensas. E esse ciclo é sem fim.

Aí junta isso com o nosso comportamento dissociativo e…BOOM. Além de não estarmos aprendendo muita coisa, nossa bolha, que protege nossas crenças e vieses, está ganhando uma barreira cada vez mais reforçada e intransponível.

E aí a gente vai afundando no problema, ó:

Porque quando você só consome aquilo que reforça suas crenças, você perde também a capacidade de se escutar e junto com isso vai embora a sua capacidade de se autoafirmar.

Quer ver só um exemplo prático?

Se alguém diz algo que vai contra os meus valores, eu ganho a oportunidade de ser atravessada por sentimentos e pensamentos que me ajudam a reafirmar as minhas crenças. Ou a mudá-las, se for o caso. O ponto é:

Confrontado pelo diferente, você não perde o senso crítico porque é no diálogo e nas diferenças que a gente se reconhece.

Isso tudo, por si só, já está trágico, né?

Mas como desgraça pouca é bobagem, isso me leva a pensar no ponto a seguir.

5. Somos cobrados para nos posicionar, produzir conteúdo e influenciar

E se caminharmos todos em direção a isso, adivinha só que tipo de conteúdo vamos reproduzir? Mais do mesmo, claro.

Afinal, se a matéria prima é a mesma e não há pensamento crítico para duvidar das nossas próprias premissas…bom aí eu chego rapidamente no último ponto.

6. Resultado = produção de conteúdo cada vez mais pobre, que retroalimenta o sistema

Aí o ciclo da tragédia está completo. E sou obrigada a dar razão para o meu amigo reclamante.

Tem muita gente produzindo mais do mesmo e sendo exaltado por isso. E a culpa não é do contratante, isoladamente. Também não acho que seja má fé do produtor de conteúdo. A culpa é de todo esse sistema que se retroalimenta e torna a tarefa de separar o joio do trigo cada vez mais difícil. E o pior: não vai melhorar.

E se no final ficar provado que a gente não lembra de nada mesmo, então tudo isso pouco importa. É só rolar a tela pra cima ou contratar um próximo palestrante para acalmar o nosso sistema de recompensa e pronto. Problema resolvido.

AAAARF(onomatopeia para "perdi o ar e me faltam palavras")

Tem jeito, Gabi?

Eu não sei. Ainda estou pensando sobre isso. O que você acha?

Meu lado otimista e idealista se nega acreditar no impossível. Mesmo a vida já tendo me ensinado que isso é um tanto quanto ingênuo, eu reluto em aceitar passivamente um futuro pior.

Mas como eu não vejo claramente uma solução, por ora a minha forma de resistência é tentar ser TopNada, influencer de coisa alguma.

Isso porque eu morro de medo de ser considerada TopAlgo e virar refém da minha bolha, dos meus vieses e crenças atuais.

Tenho receio de encontrar um nicho e me unir a pessoas que valorizam o que eu penso e o que eu falo num determinado momento, e depois ficar presa numa versão editada de mim mesma.

Porque isso tudo vai contra a minha forma de expressão mais autêntica que é poder "desdizer aquilo tudo que eu lhe disse antes", como dizia Raulzito.

Só assim eu me sinto livre.

E a liberdade de sermos quem somos não deveria ser negociável, né?

E você?

Que tal me ajudar a desdizer esse raciocínio falho, subjetivo e bastante incompleto?

Comenta aí e ajuda esse texto longo, não escaneável, que não quer te influenciar em absolutamente nada, chegar ao maior número de pessoas possível.

Bora sair da bolha.

—X—

Vou encerrar com a questão central do texto, torcendo para que você decida me responder: tem jeito?

Eu ponderei, ponderei, mas claramente não trago soluções. Será que você tem alguma aí para dividir comigo? Ficarei feliz em te ler. =)

Ah! Antes de ir, quero deixar um último recado/pedido:

O número de leitores dessa news só cresce quando eu faço posts no Linkedin. Como esta atividade está suspensa por um tempo, estou enfrentando um longo inverno…*rs (ou seja: zero novos assinantes!).

Se fizer sentido pra você, que tal indicar a Ninguém precisa para alguém? Pode ser um grupo de zap, um post no Linkedin, uma recomendação no Insta (to lá também como @gabiteco.oficial, pode marcar o meu perfil que eu reposto =) etc.

O link de assinatura, pra facilitar ó: https://ninguemprecisanewsletter.beehiiv.com/

Obrigada e até a próxima!

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