“Achei que você fosse preferir pegar esse tempo pra pensar no que fazer”, disse a minha chefe ao me demitir no dia 19 de dezembro.

Além de estarmos às vésperas do Natal e do Ano Novo, faltavam onze dias para as minhas tão sonhadas férias.

Agora eu te pergunto: quem vai querer passar as festas de final de ano pensando no desemprego?

Essa lembrança me veio depois de ouvir um relato recente de uma amiga que enfrentou um câncer de mama. 

Ela contou que o mais difícil não foi o tratamento ou a cirurgia invasiva, mas sim os comentários de quem tentava consolá-la a qualquer custo. 

Do clássico “pelo menos você tá viva” ao absurdo “você precisa liberar as mágoas que te causaram o câncer”, ela ouviu de tudo. 

Havia uma fila de gente para falar o que ela deveria fazer e como ela deveria se sentir.

Já o grupo de interessados em saber como ela realmente estava era reduzidíssimo.

A verdade é que quase ninguém quer ouvir o outro de verdade. 

No mundo do trabalho, isso se acentua. Vemos aos montes líderes que comunicam muito mas se conectam pouco. Que falam de empatia, mas não têm tempo para escutar.

E aí eu preciso confessar:

não tem coisa que me irrita mais do que gente que fala compulsivamente. 

Quando eu era jovem e tinha poucos recursos emocionais para lidar com essa galera, a minha estratégia era evitar ao máximo ficar à sós com os sanguessugas da minha energia vital.

Mas e no trabalho? Como faz? A vezes o cidadão verborrágico é nosso chefe. Fugir não é uma opção.

Então, ao longo dos anos, comecei a catalogar os falantes compulsivos em uma escala Gabi Teco de desespero. 

Eles ainda não haviam surgido como personagens, é verdade.

Mas como essa news se propõe a abordar os dilemas corporativos de maneira ousada (e nem sempre eu consigo HAHAHA), quebrei a cabeça para encontrar figuras que me ajudem a materializar esses embustes com didatismo.

Chamei de escala, mas é difícil determinar qual deles me irrita mais. 

Pelo menos agora nós (eu, você e as vozes da minha cabeça) teremos um novo esporte favorito: enquanto o sujeito falante faz o que ele mais ama na vida, que é dar “palestrinha”, poderemos nos distrair pensando a qual grupo o tagarela pertence.

Mas antes de olharmos a escala, um alerta: se você é novo por aqui precisa saber que eu brinco, mas depois da zoeira sempre vem um convite para entendermos juntos o que explica os fenômenos que essa news aborda. 

A esperança é ter mais ferramentas para tocarmos as nossas vidas profissionais sem surtar (o que já anda bem difícil, né? *rs)

Vamos aos nossos personagens de hoje. 

Será que você identifica algum colega na escala? Ou, quem sabe, você mesmo? *rs

Escala Gabi Teco de desespero

  • O Monotemático: 

    Bubba, amigo do Forrest Gump. No longa, ele passa muitos tempo falando de um único tema (formas diferentes de preparar camarões)

    Só fala de um assunto. Sempre. Até quando o contexto não pede. No trabalho, é aquele colega que transforma qualquer reunião em um monólogo sobre seu tema preferido.

  • O Mentiroso: 

    Chicó, de O Auto da Compadecida

    Ama ouvir a própria voz. Fala por falar, inventa quando precisa, não suporta o silêncio. Muitas vezes, fala pra se proteger.

  • O Carismático

    Burro, de Shrek

    Gente boa, divertido, mas esgota a sala. Fala tanto que, mesmo com boas intenções, não dá espaço pra ninguém mais existir.

  • O Ansioso

    Ansiedade, personagem de Divertida Mente

    Fala por nervosismo. É atropelado pelos próprios pensamentos. No ambiente de trabalho, costuma interromper, mesmo sem querer.

  • O Reclamão crônico 

    Hardy, do Lippy and Hardy

    Sua fala é uma metralhadora de lamúrias. Nada está bom. Toda reunião é uma oportunidade pra prever o fracasso.

  • O Evangelizador falsificado 

    Inri Cristo

    Fala muito e com entusiasmo, mas tudo soa fake. Vive de slogans sobre propósito, cultura e mindset, mas na prática não entrega nada alinhado com o que prega.

  • O Manipulador sarcástico

    Caco Antibes, de Sai de Baixo

    Fala muito, com ironia e superioridade. Adora um palco e usa a retórica afiada pra se impor e diminuir o outro.

Se na nossa vida pessoal já é difícil lidar com essa galera, na profissional estas relações custam muito. Emocional, relacional e estrategicamente.

Então, vamos ao nosso maravilhoso menu do dia para organizar e entender esse imbróglio todo.

  1. Quem lidera a narrativa detém poder

  2. A cultura do “falar bem” como símbolo de competência

  3. O incômodo com a ambivalência: onde foi parar a escuta real?

  4. Resultado: desencontros que saem caro

Segura a minha mão e vamos nessa?

1. Quem lidera a narrativa detém poder

No mundo corporativo, quem conduz a narrativa frequentemente conduz também o rumo dos projetos, das decisões e das relações. 

Personagem da série Game of Thrones, Cersei Lannister também é um bom exemplo de falante do tipo manipuladora

Michel Foucault já dizia que todo discurso é um exercício de poder. É quem define o problema que também limita as soluções. 

E quando uma liderança decide, sozinha, como o outro deveria se sentir (como no meu caso da demissão), ela não só invalida a experiência alheia, mas reforça uma hierarquia simbólica: “eu falo, você sente o que eu digo”.

Na prática, isso mina confiança. Porque quem sente que não pode contar sua própria história também deixa de se engajar com a dos outros.

2. A cultura do “falar bem” como símbolo de competência

Nas organizações, há uma valorização quase mítica do “bom comunicador”. Aquele que apresenta bem, que tem frases de impacto, que fala bonito.

Zé Bonitinho, personagem do programa Escolinha do professor Raimundo. Um “palestrinha” mestre do autoelogio

O resultado são líderes que performam empatia, mas não escutam genuinamente. Que ouvem para responder não para compreender.

Essa lógica pode até gerar resultados de curto prazo. Mas dificilmente constrói confiança, pertencimento ou inovação de verdade.

3. O incômodo com a ambivalência: onde foi parar a escuta real?

Vivemos um tempo de respostas rápidas e certezas fáceis. Mas liderar pessoas é, quase sempre, um exercício de lidar com o não saber: o desconforto, a dúvida, o "não sei ainda".

Zygmunt Bauman falava sobre como a modernidade líquida nos empurra para a pressa, inclusive emocional. Não há tempo para digerir o que se sente.

No ambiente corporativo, isso se traduz em diagnósticos apressados, avaliações precipitadas e uma aversão a tudo que não seja binário. 

Só que pessoas não cabem em checklists. 

Ambivalência é parte da experiência humana, especialmente em contextos de mudança. E sem espaço para a escuta e observação dessas polaridades, o que sobra do sujeito?

4. Resultado: desencontros que saem caro

Quando ninguém escuta de verdade, as relações se tornam frágeis. Feedbacks viram ruídos. Reuniões viram disputas. Times desengajam.

Tem muito líder por aí fingindo ser a “Velha Surda", personagem icônico do programa A praça é nossa.

Escutar é se lançar numa piscina sem saber sua profundidade. No mundo do trabalho, esse risco parece elevado demais. E por isso, muitos líderes preferem manter distância em nome da objetividade, da produtividade, da estratégia.

Mas o custo disso é alto: burnout, turnover fora de controle, falta de senso de pertencimento etc. 

E o que parecia pragmatismo se revela, na prática, ineficiência relacional.

Falta muito?

Estamos quase lá…

No fim das contas, uma das coisas que mais me marcou naquela demissão não foi somente a perda do emprego. 

Foi a perda do espaço de sentir.

A tentativa de “resolver” o incômodo com uma frase pronta. Como se a fala da liderança fosse suficiente para organizar a dor do outro.

E isso me faz pensar: quantas lideranças, bem-intencionadas, fazem exatamente isso todos os dias?

Escutar, de verdade, é abrir espaço para o outro existir.

É sustentar o silêncio com presença. É aceitar que o outro tem uma narrativa própria e que talvez, ao ouvi-la, algo em você precise mudar também.

Como líderes, somos treinados a comunicar, convencer, inspirar, mas quase nunca pra sustentar o desconforto de simplesmente escutar.

O problema é que, enquanto a fala estrutura o discurso, é a escuta que sustenta a relação.

E são as relações que mantém qualquer organização em movimento.

—X—

E você? Desconfia que possa ser um falante compulsivo ou está mais para o time dos bons ouvintes?

Acha que isso tudo é balela de quem “escreve bonitinho” ou realmente acredita que escutar pode ser um diferencial competitivo dos bons?

Se você estiver lendo no seu email, aperta em “responder” e  larga o dedo aí no teclado. Pode falar com sinceridade. Eu sou forte, eu aguento. *rs

Até porque vocês (leitores em geral) estão tornando a minha vida muito fácil e me deixando mal acostumada. EU NÃO SEI QUE BICHO DEU EM VOCÊS, mas na semana passada começaram a chegar novos assinantes aos baldes.

Se você é novo por aqui e está recebendo essa news pela primeira vez, me ajuda a entender: de onde viestes? Quem te trouxe? *rs

Tenho pedido ajuda para divulgar esse boletim desnecessário, mas não imaginei que o retorno viria no atacado. A base aumentou mais de 10% em uma semana e esse comportamento é absolutamente atípico.

Seja lá o que vocês estejam fazendo, por favor, continuem. Essa escritora, que sofre semanalmente para te escrever, agradece de coração.

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