Essa news segue cumprindo o seu “entre tempos" por conta da minha licença maternidade. Então, até eu voltar a escrever conteúdos inéditos semanais, continuarei dividindo aqui os bastidores dos textos mais comentados do meu Linkedin.
Hoje vamos falar sobre como o mundo corporativo se aproveita do nosso desejo de pertencimento para criar um falso espaço de acolhimento e propósito.
Eu já fui a líder que repetiu inúmeras vezes que a autenticidade era uma das coisas mais valorizadas pela empresa. Ingenuamente, convidava às pessoas a serem elas mesmas no ambiente de trabalho, sem me dar conta que nem eu conseguia praticar o que eu pregava.
Depois que saí do mundo corporativo, passei a questionar: por que aceitamos representar papéis tão diferentes do nosso “verdadeiro eu” nesse grande teatro chamado trabalho?
Na tentativa de encontrar respostas, nasceu este texto.
Bora ler? Nos créditos, eu volto com mais considerações.
—X—
Gororoba corporativa
"Aqui você pode ser quem você é,"
Eu mesma já repeti essa meia verdade para novos funcionários.
Não foi de propósito, juro.
Fui seduzida pela ideia de fazer parte de uma tribo.
E também pelo significado que o trabalho pode dar à existência humana.
Só não notei que a dedicação cega ao mundo laboral também pode nos transformar em alienados compradores de pudim de padaria.
Como?
Basta misturar comportamentos de grupo, adicionar uma pitada de propósito e escolher um inimigo comum.
Voilà.
Tá pronta a gororoba corporativa, capaz de estragos inimagináveis.
Mas vamos por partes.
1. Ser ou não ser, eis a questão
O que começa com "aqui você pode ser quem você é," rapidamente ganha um complemento depois da vírgula mais ou menos assim:
, contanto que você se comporte como todo mundo, a fim de preservar sua permanência nessa tribo
É sutil. A gente não percebe que o convite à autenticidade já vem com vírgula.
Escondida sob o pseudônimo de "fit cultural", a ameaça é invisível, mas está lá. Sempre esteve.
E agora, atenção!
Essa é a parte mais importante do texto.
Isso não é uma crítica. O mundo do trabalho precisa funcionar. E para que isso aconteça, é preciso que as pessoas, em grupo, topem se comportar de uma certa maneira em prol de um mesmo objetivo.
Meu interesse aqui não é negar a existência e a função de uma cultura organizacional. Tenho até um curso gravado sobre esse tema, portanto é um assunto que me é caro.
Minha curiosidade é sobre os motivos que nos levam a aceitar determinados papéis nesse grande palco chamado trabalho.
2. Somos todos personagens, então?
Não.
Essa seria uma simplificação estúpida de um problema que é complexo e bastante subjetivo.
Nosso desejo de pertencer e de enxergar sentido nas coisas é tão ou mais antigo que a própria civilização.
Nos primórdios da nossa existência, ser expulso da tribo era uma sentença de morte.
Morreu de que? De leão, coitado!
O indivíduo era largado à própria sorte, sendo alvo fácil para todo tipo de ameaça.
A questão é que não estamos mais na caverna, estamos? (Alô, Platão).
Ao que tudo indica, já podemos questionar a nossa tribo e entender se queremos ou não pagar o preço de nos mantermos nela.
Já a melhor pista sobre o quão antiga é a nossa busca por sentido está no surgimento das primeiras religiões, em 1500 a.C.
O mundo do trabalho não inventou nada novo.
No extremo, tem até CEO acreditando ser a própria reencarnação de Cristo, e pior: tem funcionário acreditando.
O assustador disso é o seguinte:
Pertencer a um grupo e permanecer numa mesma bolha por muitos anos molda a nossa percepção de mundo.
A gente não nota que, no ímpeto de pertencer, às vezes empurramos algumas velhas convicções para o porão.
E em caixas empoeiradas, nossos sonhos e ideais ficam lá, aguardando pacientemente o dia do nosso retorno.
3. Eu voltei, agora pra ficar?
Se você leu a edição "Coletinho, copo Stanley e chapéu de burro”, vai se lembrar que a minha "eu-escritora" foi adormecida.
Nasceu então a minha "eu-executiva".
Há imagens das minhas primeiras tentativas de comunicação com o mundo corporativo, veja:

No desconforto de ser quem eu não era, vieram os meus maiores aprendizados.
Foi na esfera-corp, com líderes bem pragmáticos, que eu aprendi a "domar" pensamentos desconexos, dominar uma nova linguagem e colocar tudo à serviço do lucro.
E tive a sorte de, logo no meu primeiro papel, encenar uma personagem que me caiu bem!
Fui funcional. Palmas pra mim! =)
Mas em algum momento as coisas começaram a não fazer mais sentido.
4. Tem vaga para Chief Philosophy Officer?
É aqui que o descompasso acontece ó:
O tempo que é dinheiro no mundo dos negócios, não é o mesmo tempo necessário para fazer sentido no mundo dos humanos. Humanos estes que, vejam só, são responsáveis pelos negócios.
Talvez por isso, não tenhamos filósofos empregados no mundo executivo (acho).
Mas curiosamente eles estão sempre no top 10 palestrantes mais contratados pelas empresas.
Por que será?
Porque fazer sentido é um desejo tão humano quanto pertencer.
O trabalho precisa da gente operando no piloto automático. Mas não por muito tempo.
E, antes que a corda arrebente, somos colocados em um anfiteatro para ver quem? Cortella ou o Clóvis de Barros (amo, não me cancelem!).
Então, todo mundo se lembra de como é bom pensar e fazer sentido.
E depois a gente faz o quê? Coloca todo mundo no piloto automático de novo. Ou seja:
O sentido, que andou sendo apelidado de propósito no mundo do trabalho, é como uma pitada de fermento. Sem ele, o bolo não cresce. Mas em excesso, a massa desanda.
O designer que projetou o universo corporativo sabia exatamente o que estava fazendo.
É por isso que o convite para "sermos quem somos" DENTRO da empresa é tão sedutor.
Quando isso não é possível (e quase sempre não é mesmo), é natural que busquemos algo que possa completar esse vazio existencial.
5. Olha a polarização aí, geeeeente.
A verdade é que estamos tão exaustos e tão esvaziados de sentido, que viramos presa fácil para a turma da polarização.
Eles estão “hiring” e nós “open to work”.
A descrição da vaga é ótima:
Faça parte do nosso grupo e nos ajude a derrotar o inimigo. Como recompensa, sua vida ganhará um novo sentido e você finalmente se sentirá pertencente.
Esse inimigo pode ser um sistema econômico ou um partido político. Mas há quem enxergue o trabalho como vilão. Ou o chefe. Ou o concorrente.
Investimos tanto tempo representando papéis no trabalho, muitas vezes assumindo um comportamento de grupo que nem sempre está alinhado com as crenças que deixamos no baú, que…
Bom, antes dessa difícil conclusão, preciso abordar o viés do custo afundado.
Já ouviu falar? A galera que entende de investimento também chama de custo irrecuperável. Traduzindo aqui pro contexto que nos interessa:
É aquele momento que você sente que já investiu muito para desistir. Aí, embora o plano já não atenda mais às suas necessidades ou, pior, mantê-lo trará prejuízos ainda maiores, você segue em frente mesmo assim.
Já entendeu o imbróglio que dá quando aplicamos a lógica do viés do custo afundado às nossas carreiras né?
Ocupados, tentando sobreviver, não podemos dar brecha para a dúvida.
Duvidar seria como se permitir descer no porão, abrir as caixas empoeiradas e confrontá-las com a realidade atual que se impõe.
Para quem ousa escavar o passado, uma coisa é certa:
Haverá conflitos, arrependimentos, aprendizados, aspectos bons e ruins da troca que cada um topou (topa) fazer para dar vida aos seus personagens.
Será que valeu a pena? Será que continua valendo?
Está na hora de mudar de tribo? Ou a sensação é de já ter investido demais para desistir?
Eu me pergunto. E pergunto a você.
Não ter respostas não é o problema. O problema é não questionar.
Quem não duvida está mais suscetível a aceitar passivamente ideias do tipo “pudim de padaria”.
Tem cara de pudim, cheiro de pudim, consistência de pudim, mas depois da primeira colherada você nota que é só uma gororoba.
—X—
Relendo o texto, não estou certa de que eu respondo a questão central que eu mesma propus. Os argumentos são bons, mas não explicam na totalidade por que a gente banca no trabalho uma personagem muitas vezes tão diferente da gente.
O que me leva a crer que, talvez, não exista uma explicação universal, e sim algo em nossas próprias histórias que nos leva a este ou aquele caminho.
O que você pensa sobre isso?
Se você já se pegou pensando que talvez seja muito tarde para mudar, lembre-se do viés do custo afundado. Essa ideia pode te ajudar a dar um plot twist na sua carreira. =)
Ah! Antes de ir embora…
O número de leitores dessa news só cresce quando eu faço posts no Linkedin. Como esta atividade deve ficar suspensa por um tempo, é capaz que eu enfrente um longo inverno por aqui….*rs
Se fizer sentido pra você, que tal indicar a Ninguém precisa para alguém? Pode ser um grupo de zap, um post no Linkedin, uma recomendação no Insta (to lá também como @gabiteco.oficial, pode marcar o meu perfil que eu reposto =) etc.
O link de assinatura, pra facilitar ó: https://ninguemprecisanewsletter.beehiiv.com/
Até a próxima

