Foi no dia onze de julho de 2023 que eu respirei fundo e falei em voz alta:
“Quero sair e não posso esperar até o fim do ano fiscal".
Éramos quatro na sala do Zoom: os dois sócios da empresa, eu e a minha coragem.
Na minha primeira tentativa de me demitir, me perguntaram se eu toparia ficar até a virada do ano. Eu disse que sim, querendo falar não.
Algumas semanas mais tarde, no fatídico onze de julho, eu finalmente risquei uma linha no chão para dizer: aqui é o meu limite e daqui eu não passo.
Ainda fiquei três meses em transição, mas já aliviada por ter em mãos a chave da minha gaiola.
E agora, prestes a completar dois anos, vejo que este tempo, somado ao exercício da escrita dessa news, tem me feito olhar para o mundo do trabalho por novas lentes.
Quase sempre em tom de crítica, é verdade.

Às vezes eu me sinto o Garoto Enxaqueca do mundo corporativo. Nos intervalos da finada MTV, os vídeos curtos desse menino tolerância zero era garantia de diversão.
Tem texto escrito por mim que eu mesma enquadraria na categoria polêmico demais ou excessivamente raivoso.
Logo eu, que sempre fui tão mansinha, do tipo que dizia mais amém do que “péra lá" .
Não no temperamento, ta? Quem trabalhou comigo sabe que eu nunca fui de silenciar e sorrir. Dei bons latidos.
Mas fui tipo um pinscher dos executivos. Barulhento, porém inofensivo.
A real é que toda vez que eu me questiono se esse tom crítico é mágoa, recalque ou qualquer sentimento desse nível, recebo relatos de leitores contando seus próprios dramas.
Aí o meu viés de confirmação fica agitado, todo pomposo, se achando o dono da verdade.
Então, passei a acreditar numas hipóteses meio doidas sobre quem ainda está no mundo corporativo.
Como elas andam me perturbando, resolvi usar minha fluência em corporativês para criar uma matriz.
A gente sai da firma, mas o PPT segue vivo dentro da gente.
A lógica é simples, ó:
→ No eixo X, temos o nível de consciência do executivo sobre o colapso silencioso do sistema de trabalho tradicional.
→ No eixo Y, o nível de planejamento pra lidar com esse colapso.

Fonte: vozes da minha cabeça → Siga meus perfis no Insta @gabiteco.oficial e In /gabrielleteco
E foi assim que cheguei a quatro quadrantes. Ou melhor, quatro personagens que a gente encontra por aí, nas salas de reunião e nas dancinhas de endomarketing:
Bailarinos de banda: baixa consciência, baixo planejamento.
Coadjuvantes, eles estão sempre sorrindo e dançando conforme a música que alguém botou pra tocar. É a galera dos passos ensaiados e pouca noção de que o palco está pegando fogo.
Nazaré Confusa: alta consciência, baixo planejamento.
Grupo que já entendeu que tem algo muito errado no jogo, mas segue confuso, sem saber por onde começar a sair dele. Há intenção sem ação concreta.
Gollum (Smeágol): baixa consciência, alto planejamento.
Obcecados pela entrega, dominam as regras do jogo e acham que isso é vitória. Seguem protegendo o “precioso” (a meta, o bônus, o crachá dourado) e usam sua alta capacidade de planejamento para manter o sistema como está.
Walter White: alta consciência, alto planejamento.
Começaram mansos, mas assim que entenderam o sistema, traçaram uma rota de fuga. Sabem que não se sai desse modelo no grito, então saem pelas beiradas: com estratégia, clareza e uma pitada de ousadia.
Se as hipóteses que eu levantei sobre estes quatro perfis forem verdadeiras, a pergunta que mais martela na minha cabeça é a seguinte:
Como raios a gente chegou até aqui?
Claro, tenho palpites.
E essa é a sua última chance de me abandonar.
Porque, daqui pra frente, preciso que você agarre firme na minha mão pra gente pular juntos nessa piscina que não está nem quente e nem rasa.
Bora? Cardápio indigesto do dia:
The american dream e o golpe bem embalado
A grama do vizinho formato “timeline infinita”
Vidas editadas e a estética da performance
Desacelerar é romper o feitiço
—X—
1. The american dream e o golpe bem embalado
A gente acreditou mesmo. Acreditou que bastava esforço, dedicação, boa vontade e alguns gurus de LinkedIn nos dizendo como vencer na vida.
Acreditamos tanto que nem percebemos que esse tal sonho americano era só isso mesmo: um sonho. E que, como todo bom sonho, só dura até a gente acordar.
O problema é que a gente não acordou.
Pelo contrário. Decidimos morar dentro do sonho.
E agora, quem questiona o modelo é visto como fraco, ingrato, desajustado ou comedor de criancinhas (apelido comumente dado aos comunistas).

Do seu pai e de mais 99% da população brasileira, viu Leonardo?
Arthur Miller entendeu cedo esse abismo entre promessa e realidade. Em A Morte do Caixeiro Viajante, de 1949, ele mostra Willy Loman, um homem comum que acredita piamente no sonho americano e é engolido por ele.
Loman não fracassa por preguiça ou falta de talento, mas porque insiste em jogar um jogo que já estava perdido.
A tragédia dele não está em "não ter vencido", mas em não conseguir imaginar outra forma de existir que não seja vencendo.
Hoje, mesmo do lado de cá do hemisfério, executivos repetem o script como se fosse um manual de conduta ética: foco, resiliência, meta, gratidão.
Mas ninguém fala que o sonho virou uma prisão disfarçada de oportunidade. E que os mais bem-sucedidos são, muitas vezes, os mais cansados.
O mais irônico é que esse sonho, que prometia liberdade, acabou se tornando o principal agente de controle.
E o crachá virou um tipo de passaporte pra um país que não existe.
2. A grama do vizinho no formato “timeline infinita”
Se antes a gente já se comparava com o colega do lado, agora se compara com o diretor de Berlim, a coach de Bali e o estagiário de 19 anos que já tem TEDx.
A rede virou uma vitrine onde todo mundo parece mais magro, mais bonito, mais bem-sucedido e mais feliz do que você.
O psicólogo Barry Schwartz fala no livro The Paradox of Choice que quanto mais opções temos, mais infelizes nos tornamos.

Siga @pedrovinicio80 nas redes. Você não vai se arrepender.
Agora pense nisso aplicado às vidas possíveis que vemos na timeline. São infinitas versões de sucesso, estilo, propósito e produtividade pra escolher.
E a sensação constante é de inadequação.
Comparar-se o tempo todo não nos ajuda a melhorar, só nos ajuda a nos sentir menores.
E quando você soma isso a um sistema que já cobra performance 24/7, o resultado é um cansaço existencial.
Não é que a gente tá desmotivado. É que a régua virou um foguete da SpaceX: ninguém sabe se vai subir ou explodir.
A internet prometeu ampliar nosso mundo, mas acabou nos trancando numa esteira de comparação. Uma corrida infinita, onde nunca se chega, mas todo mundo parece estar na sua frente.
E o pior: a cada meta que você atinge, já tem um novo marco inventado na timeline.
A grama do vizinho não é só mais verde. Ela vem com drone, ring light e depoimento de cliente satisfeito.
3. Vidas editadas e a estética da performance
Tem gente feliz, mas que não posta, logo parece infeliz.
Tem gente bem-sucedida, mas que não performa carrossel, então parece medíocre.

E tem gente infeliz performando felicidade. Seria o caso da influencer Virgínia Fonseca e do cantor Zé Felipe? O anúncio recente da separação do casal esquentou o debate nas redes.
A régua agora é a aparência pública da felicidade, não a experiência íntima dela.
No clássico A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord explica como o que importa não é mais a realidade, mas a sua representação. Tudo é imagem. Tudo é encenação.
E aí entra a armadilha: como o valor está no que é visto, a gente começa a viver pra mostrar, e não pra sentir.
Se não virou post, se não engajou, se não rendeu curtida… será que valeu mesmo?
Essa lógica contamina tudo. Inclusive o trabalho.
Tem gente desmotivada que segue fazendo post emocionado no Linkedin.
Tem gestor tóxico ganhando prêmio de liderança consciente.
Ser virou detalhe. O importante é parecer alinhado, pleno, engajado e visionário.
Mesmo que, por dentro, você só esteja querendo um pouco de silêncio.
4. Desacelerar é romper o feitiço
Quando eu pedi pra sair naquele onze de julho, eu ainda não tinha clareza de tudo isso.
Não sabia que estava enfeitiçada pelo sonho de liberdade que, na verdade, me mantinha presa. Só sabia que meu corpo estava cansado de aguentar.
Hoje, depois de dois anos fora, consigo ver o enredo com mais nitidez. E mesmo que a minha escrita seja em primeira pessoa, isso tudo não é só sobre mim. É sobre o modelo.
Um sistema que nos vicia em performance, nos embriaga com comparação e nos convence de que ser não basta.
A boa notícia é que vejo um movimento de despertar, ainda bastante pontual, é verdade.
Mas foi isso que me inspirou a criar a matriz. Representar simbolicamente estes atores do cenário corporativo talvez nos ajude a enxergar onde estamos e para onde podemos ir.
Talvez você se enxergue como Bailarino de banda. Ou se identifique com a Nazaré. Talvez esteja no plano mirabolante do Gollum ou arquitetando sua saída como um bom Walter White.
Ou talvez, como eu naquele onze de julho, só esteja exausto e querendo dar um tempo.
O importante é reconhecer o lugar em que você está. Não pra se julgar, mas pra decidir, com calma, se quer continuar ali.
Porque, apesar do tom crítico, este texto é movido por esperança.
A matriz aponta rotas de fuga, mas eu não acredito, de verdade, que a solução esteja em todo mundo pular fora.
O sistema não muda com o abandono em massa, e também não se transforma com meia dúzia de rebeldes.

Exceto quando essa meia dúzia é o RBD. Não é da minha época, mas coloquei aqui pra te provar que posso ser XÓFEN quando eu me esforço. *rs
Mudar de dentro é possível, mas é difícil. Os incentivos estão tortos. As recompensas favorecem a repetição, não a ruptura.
Por isso, acredito mais na ampliação da consciência, no diálogo honesto e na inteligência coletiva.
A mudança que me interessa é degrau a degrau, construída com os outros, num caminho que a gente inventa junto, mesmo sem saber exatamente onde vai dar.
Se escrevo sobre tudo isso nessa news que ninguém precisa, é porque ainda me importo.
A gente só dedica tempo ao que é caro. E eu sigo investindo o meu aqui. Escrevendo, pensando e torcendo pra que mais gente desperte.
Não pra sair correndo.
Mas pra olhar em volta com mais lucidez, menos medo e, quem sabe, mais liberdade.
—X—
→ Bônus track: minha contribuição para quem deseja desacelerar e pensar em rotas alternativas
Se você chegou até aqui, talvez esteja em transição. Ou, pelo menos, se perguntando se dá pra viver de outro jeito.
Foi pensando nisso que eu e Carol Genovesi, amiga e parceira de trabalho, criamos o podcast Na volta a gente se encontra, uma conversa aberta sobre transformações de vida e carreira, reencontro com o que realmente importa e o dinheiro como aliado nessa jornada.
Já temos dois episódios no ar:
Episódio 1: Quando o plano B vira plano A
Sobre aquele momento em que a ideia de mudar deixa de ser um devaneio e vira necessidade. É coragem? Desespero? Ou só o corpo dizendo “chega”?
Episódio 2: Quem sou eu sem o meu crachá?
Quando a carreira para, quem continua? Um episódio sobre identidade, medo do vazio e o que pode florescer no espaço que o crachá deixou.
Se algum desses temas bate aí dentro, te convido a ouvir. Com calma. No seu tempo.
Porque na pressa a gente se perde. Mas na volta, a gente se encontra.
—X—
Você se identificou com algum dos quatro personagens da matriz?
Se quiser me contar, eu leio. Com olhos abertos, ouvidos atentos e sem nenhuma régua na mão, prometo.
Quero aproveitar para agradecer aos leitores que se sensibilizaram com o pedido que eu fiz na edição passada (sobre fazermos essa news chegar em mais gente).
Uma fonte confiável me contou que o texto estava sendo debatido em um grupo de RH no whatsapp, acredita? Fiquei feliz com o feedback qualitativo. =)
Quantitativamente também senti os efeitos da recomendação de vocês. Chegaram mais de 15 novos assinantes em um único dia, comportamento absolutamente atípico por aqui.
Funcionou, gente. MUITO OBRIGADA.
E se você pensou em compartilhar mas não o fez porque achou que não traria resultado, espero que essa mensagem te encontre e faça você rever os seus conceitos. *rs
Toda ajuda é bem-vinda. Aqui o link pra facilitar, ó: https://ninguemprecisanewsletter.beehiiv.com/
Até a próxima!

