“Que post infeliz, usando do falecimento de alguém para fazer graça. Melhore", comentou uma conexão de terceiro grau no meu Linkedin.

Receber meu primeiro hating na rede profissional me deixou dividida: lisonjeada (dizem que é sinal de que estamos furando a bolha) e, ao mesmo tempo, meio fula da vida.

O post em questão era o boletim “O fantástico mundo do Linkedin", que eu publico lá toda sexta-feira fazendo uma crítica bem humorada sobre os temas quentes da semana explorados pelos gurus Linkediners.

Acontece que, na semana em que perdemos Preta Gil e Ozzy Osbourne, o morango do amor e o casal Coldplay dominaram as timelines. Essa era justamente a ironia (e não a piada) por trás da minha publicação.

O queridão que comentou não entendeu. Mesmo que, na imagem do post, eu tenha estampado o selo “Alto em ironia".

Isso me fez pensar no desafio comunicacional que enfrentamos hoje em dia. Por muito menos, pessoas já foram canceladas ou duramente atacadas nas redes.

Criando conteúdo, o que adianta matar um leão por dia, se a gente não consegue desviar das antas? *rs

Com perdão da (agora sim) piada, penso que esse não é um desafio que afeta somente quem está na arena da tal da creator economy.

Isso impacta a minha, a sua e a vida de todo mundo que hoje se comunica por múltiplas plataformas, na agilidade de um áudio no 2x, correndo o risco de ser mal interpretado a qualquer momento.

“O que ele quis dizer com esse emoji?", quem nunca se pegou pensando sobre isso, que atire a primeira pedra.

Do tarifaço à polarização, não falarmos a mesma língua (do ponto de vista semântico) pode trazer implicações muito mais complexas do que os cinco minutos que eu fiquei irritadinha por conta do colega Linkediner.

E como tudo que me cutuca acaba virando texto, cá estamos.

Hoje quero falar de dois temas que se cruzam e que, para mim, fazem toda a diferença na forma como a gente se conecta e entende o mundo: curadoria e repertório.

Por que falar disso?

A esperança é que, fazendo uma boa curadoria e ampliando nosso repertório, consigamos não só desviar das antas no trabalho, mas também trazer para o nosso lado parte daquela galera que sofre cronicamente do efeito Dunning-Kruger

Você conhece o efeito Dunning-Kruger?

É um viés cognitivo onde pessoas com baixa competência tendem a superestimar suas habilidades, enquanto os altamente competentes acabam subestimando as suas.

O terror das madrugadas nas décadas de 1980 e 1990

E se reste rapaz for o único “Kruger” que você conhece, vem comigo que esta edição está especial.

Vamos ao nosso maravilhoso menu do dia:

  1. Curadoria pode te salvar

  2. Sem critério, você afunda

  3. Repertório é seu cilindro

  4. Um novo jeito de respirar?

Bora? Esse é aquele momento decisivo. 

Ou você segura na minha mão e mergulha com o cilindro certo…

…ou volta pra superfície achando que dá pra se abastecer de ar só com meme e reels de 15 segundos. Eu entendo. Mas te aviso: o fundo é mais interessante.

—X—

1. Curadoria pode te salvar

Se nas redes tudo o que você consome é conteúdo que gera reações de ódio (mesmo que o seu consumo seja do ponto de vista de quem se indigna e não de quem odeia), tudo o que você verá será este tipo de conteúdo.

Sei que isso não é novidade, mas me ajuda a explicar o título dramático deste tópico. Eu realmente acredito que fazer curadoria com intenção e método pode te salvar.

E isso vai muito além do digital. Simbolicamente, há muitas formas de deixar de existir no mundo. E quando a gente se enfia muito profundamente dentro de uma única bolha, inviabilizamos o surgimento de outras versões de nós.

Frase do Neymar que ficou famosa em uma das polêmicas que ele se enfiou

Para não soar filosófico demais, invoco o menino Ney aqui para servir de inspiração.

Quantas versões esse bom jogador deixou de colocar no mundo ao escolher (ou ser empurrado para) um caminho onde quem você representa (sua imagem, seu status e o poder que você tem) é maior do que aquilo que você faz concretamente (seu talento, seu trabalho e suas relações pessoais)?

Eu não conheço o Neymar pessoalmente. E sei que os perfis de fofoca não aliviam nada pra ele. Mas bater boca com torcedor no meio do jogo e provocar adversários dentro de campo são condutas antidesportivas que falam mais alto do que seus tropeços na vida pessoal. 

Menino Ney se afundou em sua bolha, cercado por muros altos que o deixaram preso a uma única versão da sua vida, como se não houvesse espaço para outras.

Uma pena. Jogadores muito menos talentosos tiveram carreiras muito mais consistentes por estarem abertos a testarem novas hipóteses de si.

E qualquer semelhança com o mundo corporativo não é mera coincidência. 

Do executivão e do jogador estrelado ao tiozão do Zap, estamos todos sujeitos a sermos dominados pelos nossos vieses (especialmente o de confirmação) só para sentir aquele gostinho bom de estar certo o tempo todo.

E o que isso tem a ver com curadoria, Gabi? Os hormônios da gravidez te deixaram doida, é?

Calma, meu querido leitor ou minha querida leitora. Um pouco mais confusa, talvez. Doida (acho que) ainda não.

Curadoria é o ato de escolher, com critério, o que vai ocupar seu tempo e sua atenção.

E o consumo aqui é usado no sentido mais amplo possível, tá? Do que você lê e curte nas redes sociais até o seu grupo de amigos.

Se algo demanda seu tempo e atenção, demanda escolha. E se há escolha, há curadoria, que pode ser ativa e consciente, ou não.

Como já estamos afundados num mar de conteúdo, acredito que o cilindro de oxigênio que pode nos manter vivos é o repertório, construído a partir da curadoria.

O problema é que não basta o equipamento. É preciso aprender a usá-lo.

2. Sem critério, você afunda

Para uma boa curadoria, há cinco movimentos que eu considero absolutamente fundamentais:

1. Metacognição: refletir sobre como você pensa 

Antes de salvar links e sair assinando newsletters, pare pra pensar: como você forma suas opiniões? Quais filtros vêm embutidos no seu raciocínio?

Esse movimento se chama metacognição, a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento.

É ela que transforma informação em repertório. 

Pra mim, funciona assim: quando algo me chama atenção, faço um mini debate mental. “Concordo? Por quê? Discordo? Qual o argumento por trás disso?”.

É um ato contínuo de investigação mental, sem respostas certas. Apenas hipóteses que valem ser exploradas.

Simples? Sim. E profundamente transformador.

2. Variar os formatos, não só os temas

Repertório bom exige estímulo diferente. Livro, vídeo, podcast, conversas, séries…

O ponto é: não fique só no fácil.

Se um tipo de conteúdo exige mais foco de você, talvez seja justamente o que mais vai te desenvolver. 

Densidade intelectual também é treino.

3. Buscar ativamente visões opostas às suas

Não existe repertório sem fricção.

Se você só consome conteúdo que reafirma suas ideias, você não está ampliando sua visão de mundo. Está só se confortando.

Curadoria com intenção pede uma dose de desconforto: buscar autores, criadores ou pensadores que pensem diferente de você.

Foi assim que descobri Ian Neves, por exemplo, ao procurar críticas ao modelo do "capitalismo consciente". Historiador e comunista assumido, discordei de muita coisa que ele apresentou como argumento em seu canal (quase 500k de inscritos). 

Mas também enxerguei pontos que, sozinha, eu jamais teria percebido.

4. Sair da bolha sem sair de si

Às vezes, descobrir novas vozes é só uma questão de fazer a pergunta certa para a pessoa certa.

Sabe aquele colega que compartilha conteúdos que você normalmente ignora? Ele pode ser sua ponte pra outro universo.

Curadoria também é isso: escutar quem vê o mundo de outro ângulo, sem precisar abandonar completamente o seu.

Mistura boa é a que dá textura ao pensamento.

5. Criar método pra guardar o que importa

Curadoria sem organização vira acúmulo digital. Link salvo, aba aberta, print esquecido…

Ferramentas simples já ajudam: um app tipo o Notion, uma pasta no Google drive, até um grupo de WhatsApp só com você.

Eu, por exemplo, tenho uma conta paralela no Instagram só pra seguir fontes de conteúdo.

Ali eu salvo, revisito e organizo o que me interessa. E o melhor: não me distraio com fotos de amigos de férias ou memes trocados com parentes.

Na minha rotina diária de curadoria, divido as coisas mais ou menos assim:

  • de manhã, uma leitura mais rápida, como newsletters ou aquela boa olhada no app do jornal que eu assino;

  • o almoço, um conteúdo um pouco mais longo, como um videocast ou um episódio de uma série. Como trabalho 100% home office, assisto enquanto preparo e me alimento (a TV é a minha cia, sorry!)

  • à noite, uma leitura mais densa, especialmente livros. Reservo uns minutinhos antes de dormir para cumprir este ritual. Nem sempre o sono permite, é verdade. O mais importante é criar o hábito.

É o meu jeito. O importante é você encontrar o seu. 

3. Repertório é seu cilindro

Você pode até mergulhar sem cilindro, mas não vai chegar muito fundo.

É isso que o repertório faz com o nosso pensamento: dá fôlego para ir além da superfície.

Quando eu digo que minha disposição para rir é de 5 (numa escala de 0 a 5) é disso que eu tô falando. Tem mais alguém do time “riso frouxo”aí? Podemos trocar memes! *rs

Em julho de 2021, quando eu era editora da HSM Management, publicamos uma reportagem que trouxe um alerta importante: o repertório cultural dos executivos brasileiros está empobrecido. 

A pesquisa mostrou que, de modo geral, executivos leem pouco e o pouco que leem, quase sempre, é sobre negócios.

Isso é preocupante. Porque o repertório não é um mero adorno intelectual; ele é o que dá densidade ao nosso pensamento crítico.

É também o combustível da criatividade, da empatia e da capacidade de reflexão, habilidades que hoje as empresas valorizam como nunca.

Um estudo da Muma College of Business ilustra isso muito bem: dois professores inseriram contos de ficção e debates literários nas disciplinas tradicionais de negócios. 

O impacto? Os estudantes se tornaram mais conscientes, empáticos e reflexivos, desenvolvendo soft skills que são cada vez mais decisivas para o sucesso profissional.

Ou seja: repertório importa, e muito. 

4. Um novo jeito de respirar?

Todo mundo sabe respirar. É o que mantém a gente vivo lá na superfície, no trivial, no imediato. 

Mas quando a gente decide mergulhar fundo, enfrentar as águas mais densas do conhecimento e do pensamento, respirar do mesmo jeito não basta.

É preciso reaprender (e usar equipamentos).

Aprender a filtrar, a escolher o ar que vai entrar nos nossos pulmões. Aprender a controlar o ritmo, a manter o fôlego e a resistir à pressão. 

Construir repertório não é só acumular informação. 

É construir esse cilindro próprio, que vai permitir que a gente explore, reflita, questione e volte para a superfície com uma lente de aumento sobre a vida.

—X—

Hoje farei um pedido diferente aqui nos créditos.

Que tal você me indicar uma newsletter sobre o mundo do trabalho boa de ler, daquele tipo que faz a gente pensar, rir, chorar, se identificar, tudo junto e misturado?

Além de ampliar meu repertório, quero buscar inspiração em outros autores que também caminham na contramão e que não estão se rendendo às mesmices que vemos por aí.

Não tem nenhuma referência pra me dar? Então, que tal exercitar sua metacognição a partir deste tópico? Olha só como é fácil. Comece pelas perguntas:

  • Por que será que eu não tenho essa referência?

  • Que tipo de conteúdo sobre o trabalho eu ando consumindo?

  • Como eu aloco a minha atenção e meu tempo nas “horas vagas"?

Ah, pra fechar, um informativo importante:

Esse mês faz 18 anos que eu estou grávida. *rs

Por isso, sigo escrevendo.

Mas se eu não aparecer aqui semana que vem, você já sabe.

Até a próxima (ou não hahaha),

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