Bastou dar um play na recém lançada série Raul Seixas: Eu sou, disponível no Globoplay, para eu ficar absolutamente obcecada pelas músicas do Raulzito. 

Não que a obra dele seja novidade pra mim. A família Teco é bastante musical e Raul sempre embalou nossas festas e sessões intermináveis de videokê. 

Mas ouví-las dentro do contexto da série me trouxe novos olhares sobre o artista.

Se parasse por aí, estava bom né? Acontece que o texto de hoje, que já era sobre “in between” e estava praticamente pronto, precisou ser inteiramente reformulado.

Por que? Porque me dei conta que seria impossível ignorar a quantidade de correlação entre a obra do Maluco Beleza e a vida executiva.

(e também porque quando eu cismo com uma ideia, eu vou com ela até o fim, mesmo que eu tenha o dobro do trabalho! *rs)

Bateu uma curiosidade aí?

Então fica comigo porque quero te contar como viver um “entre tempos” (ou in between, como diz Maggie Jackson) pode ser a melhor ou pior coisa que vai te acontecer um dia.

Dessa vez com trilha sonora, já que Raul Seixas foi um in between ambulante: entre o sagrado e o profano, entre o sistema e a rebeldia, entre o sonho e a realidade.

Prometo que você não precisa ser do tipo que grita “Toca Raul”em qualquer oportunidade para aproveitar a leitura de hoje, ta?

Peço apenas para que mantenha olhos atentos e coração aberto para mergulharmos fundo nessa que pode ser mais que uma edição. Pode ser uma transmutação.

E da janela desses quartos de pensão

Eu como vetor, tranquilo

Eu tento uma transmutação

Ô, ô, seu moço do disco voador

Me leve com você prá onde você for

Ô, ô, seu moço, mas não me deixe aqui

Enquanto eu sei que tem tanta estrela por aí

Trecho da música S.O.S

“In between”, ou entre tempos, é um termo novo no meu repertório e que tem feito muito sentido desde que eu pedi demissão.

Quando a gente toma uma decisão de saída sem um plano B bem definido, esse “meio do caminho” pode ser um lugar bastante esquisito de permanecer.

Foi mais ou menos assim que me senti quando saí do mundo corporativo com uma única meta: descansar.

Depois de quase vinte anos trabalhando num ritmo frenético, eu vivenciei o ônus e o bônus de ter pisado fundo no acelerador da carreira.

Começando pelo bônus: felizmente pude me organizar financeiramente para essa parada técnica. O nome disso é privilégio.

Sou parte de uma minoria que conseguiu guardar algum dinheiro para um momento como esse.

O ônus foi não ter tido tempo (nem saúde emocional) para planejar o que fazer depois.

Não era só uma questão de horas no relógio. Era de energia vital mesmo.

O trabalho sempre me consumiu muito.

Quando juntou com a maternidade, esse consumo extrapolou todos os limites.

Então, planejar um “depois” ao longo do “durante" foi impossível pra mim. 

Eu precisava mesmo resetar.

Descansei uns meses para só então começar a viver o meu “in between”: um espacinho entre o que já fomos e o que ainda seremos.

Eu sou 

Eu fui 

Eu vou.

Trecho da música Gita

Essa tríade me persegue desde que deixei meu crachá. E me lembra que, no meio dessa estrada, também mora uma pergunta difícil:

Entre o que já fui e o que serei... quem eu sou agora?

Quem eu sou sem o meu crachá?

Quem eu sou sem as minhas amarras?

É por isso que, numa sociedade acostumada com respostas rápidas, alta performance e baixa tolerância ao “não saber”, o entre tempos pode ser um lugar muito difícil.

Foi pra mim.

Apesar de ter aumentado as sessões de terapia, a sensação era como se eu estivesse sem margem.

Como um rio, que correu milhares de quilômetros amparado por faixas de terra laterais e que, de repente, deságua no oceano.

Você pode não ter dado muita importância, mas certamente já viveu alguns entre tempos ao longo da vida.

O maior e mais complexo deles, sem dúvida, foi a adolescência. Quando não somos mais crianças, mas tampouco nos tornamos adultos.

Você ainda se lembra da sensação de desajustamento dessa fase? 

A impressão era que tudo estava fora do lugar: o corpo, a voz, os pensamentos, as responsabilidades…absolutamente tudo.

Tudo era novo e, por isso mesmo, incerto.

Pode entrar, Maggie Jackson.

Jornalista e ensaísta, Maggie Jackson é uma norte-americana que estuda há anos nossa relação com a incerteza. 

E olha que interessante: segundo ela, estar entre tempos (esse “in between” estranho e sem margem) pode ser exatamente o lugar onde nossa atenção desperta.

Onde as perguntas ganham mais valor do que as respostas e onde a criatividade começa a borbulhar.

Parece contraintuitivo, né?

A gente foi educado a sair rápido dos vazios, preencher as pausas, buscar clareza. 

Mas Maggie propõe o oposto: que é justamente nesse limbo, onde nada está resolvido, que o pensamento amadurece.

Ela chama isso de “sabedoria do não saber”.

Um estado fértil, apesar de desconfortável, que exige coragem pra não correr em direção a uma solução só porque ela parece segura.

Raul, do seu jeito debochado e místico, criticava os sabichões: 

Você não tem perguntas pra fazer 

Porque só tem verdades a dizer.

Trecho da música Loteria da Babilônia

É essa falta de pergunta que transforma líderes em robôs e profissionais em algoritmos.

Maggie e Raul, de jeitos bem diferentes, nos lembram de que habitar a dúvida pode ser um ato de inteligência…ou de rebeldia.

Conheci o conceito de in between por intermédio da Ana Paula Franzoti, executiva que tivemos a honra de entrevistar no Entrelinhas S/A.

Desde o papo com ela (que viveu seu in between depois de mais de 30 anos de mundo corporativo) e agora revisitando Raul, o meu processo de transição ganhou novos significados.

Talvez o "entre tempos" não seja um lugar a evitar…mas ainda não estamos prontos para conclusões.

Bora mergulhar no nosso maravilhoso cardápio do dia? Ou você achou que eu não ia te pedir para segurar a minha mão hoje? *rs

Manual de sobrevivência in between (com trilha do Raulzito)

  1. Humana, ridícula e limitada

  2. Não quero ir de encontro ao azar.

  3. Perturbando o seu sono

1.Humana, ridícula e limitada

Trilha sonora do capítulo: Ouro de tolo, canção de 1973

Eu devia estar contente

Porque eu tenho um emprego

Sou o dito cidadão respeitável

E ganho quatro mil cruzeiros por mês

Quantos profissionais você conhece que continuam representando papéis no mundo corporativo, mesmo depois de perceber que não fazem mais sentido ali?

Talvez você seja um deles.

Eu já fui, com certeza.

Esta alienação, de certa forma, exerce um papel importante em nossas vidas. 

Como um mecanismo de defesa, que nos impede de pensar no nosso senso de valor com muita frequencia.

Afinal, questões existenciais, além de demandarem muita energia vital, não aumentam a produtividade e não são “úteis” para o mundo do trabalho.

É você olhar no espelho

Se sentir um grandessíssimo idiota

Saber que é humano, ridículo, limitado

Que só usa 10% de sua cabeça animal

Acontece que, invariavelmente, chega um momento da vida em que a gente desperta (e sim, se sentir um grandessíssimo idiota é uma das consequências possíveis disso). 

Então, uma mudança, que começa lenta e silenciosamente, vai ganhando tração.

Tem gente que se nega a ficar como está e decide se lançar na imensidão do não saber.

Eu é que não me sento

No trono de um apartamento

Com a boca escancarada, cheia de dentes

Esperando a morte chegar

O problema é que o nosso sistema de trabalho (em linha com o sistema econômico, é claro) foi desenhado para nos fazer querer mais, consumir mais e pensar cada vez menos.

Acontece que, quando a gente acorda desse transe, nem sempre vem um plano.

E é aí que mora o dilema mais difícil do in between, porque não basta sair. 

Esperam que você saia com propósito, com post no LinkedIn, com a aura de quem fez uma escolha planejada e consciente.

E se você não quiser fazer sabático na Ásia, nem montar um negócio inovador, nem virar uma referência de reinvenção?

E se você só quiser viver em paz, sem ir de encontro ao azar?

2. Não quero ir de encontro ao azar

Trilha sonora do capítulo: Cowboy fora da lei

Mamãe não quero ser prefeito

Pode ser que eu seja eleito

E alguém pode querer me assassinar

Em algum momento da nossa carreira, nos vendem a ideia de que as únicas direções possíveis é pra frente e pra cima. 

Perdi as contas de quantas vezes fui elogiada pelo meu “perfil de liderança". O que, na prática, queria dizer que eu sabia entregar, aguentar pressão e disfarçar o cansaço com um sorriso corporativo classe A

Só que em algum ponto, essa lógica da glória começou a perder o sentido pra mim.

Eu não queria ser prefeita. Eu só queria viver em paz.

Ser boa no que faço. Ter tempo pros meus filhos. Respirar entre uma tarefa e outra. Dizer não sem ser punida. Dormir bem.

Mas isso tudo, dentro de muitas empresas, parece luxo.

A empresa quer que você suba, mas desde que você não questione.

E se você recusa o script, vira o quê?

Muitas vezes, vira o esquisito. O rebelde. O fora da lei.

“Só” por querer existir fora da lógica da performance eterna, da disponibilidade infinita e da guerra por reconhecimento.

Porque o trabalho virou isso mesmo: uma disputa pra ver quem morre mais bonito.

A real é que tem muito executivo sonhando em fugir, e muito analista júnior já querendo desacelerar. Mas todo mundo com medo de parecer fraco.

Raul entendia esse impasse. Dizia que não queria ser herói, nem nada. Só queria fazer parte de um povo que acreditasse na utopia de um recomeço.

3. Perturbando o seu sono

Trilha sonora do capítulo: Mosca na sopa, canção de 1973

Eu sou a mosca

Que perturba o seu sono

Eu sou a mosca

No seu quarto a zumbizar

Tem uma hora que você percebe que já não se encaixa mais. Nem lá atrás, no velho emprego. Nem aqui na frente, na ideia brilhante que ainda não virou renda.

E nessa hora, começa o incômodo.

Você passa a observar o mundo do trabalho com um certo estranhamento. As reuniões sem propósito. Os rituais vazios de pertencimento. E começa a escrever sobre isso.

Adivinha?

Você vira a mosca.

Sim, eu sou a mosca do escritório, a zumbizar no ouvido de muito executivo.

Nos últimos meses, eu tenho sentido na pele o que é estar nesse lugar. Um tanto incômodo, um tanto invisível, um tanto “demais” pra quem quer manter tudo como está.

Escrever essa newsletter, por exemplo, é um jeito de zumbir no ouvido de quem já não aguenta mais tanto discurso e pouca prática.

Mas isso tem um preço.

Ser a mosca significa não ser mais convidada pras mesas onde todos sorriem e fingem que está tudo bem.

Significa sair da bolha dos eventos de liderança onde ninguém fala de exaustão, só de propósito.

Significa causar um leve desconforto em quem ainda está preso no script, mas começa a suspeitar que ele não faz mais sentido.

O mais curioso é que, quando a gente aceita ser essa tal mosca, vem uma estranha forma de liberdade. Porque, uma vez fora do sistema, você também sai do jogo de agradar.

Você pode errar o tom, mudar de ideia, escrever com raiva e depois com ternura. Pode não saber exatamente quem você é, nem pra onde está indo e mesmo assim seguir.

Você vira uma presença que incomoda, sim. Mas também uma possibilidade de que outro jeito de existir é possível.

Raul sabia que essa “mosquice” era resistência.

Que nem todo mundo vai virar guru. Nem CEO de startup. Nem case de Harvard.

Alguns de nós vão apenas seguir zumbindo. 

Atentos, indigestos, mas vivos.

Eu prefiro ser…

Metamorfose ambulante é a minha música preferida do Raulzito.

Porém, talvez eu ainda esteja mais próxima da mosca do que da metamorfose.

Mais próxima do vazio do que da resposta.

Mas tem algo que a Maggie Jackson diz e que o Raul, do seu jeito meio torto, também intuía:

O meio do caminho não é um limbo. É um laboratório.

Porque nele mora a possibilidade da mudança.

É como o rio que se alarga. Ele não vira oceano de uma hora pra outra. 

Primeiro, ele desacelera. Depois, começa a se misturar com outros. Até não ser mais só ele, mas também mar.

Talvez seja isso que estou vivendo: o momento em que o rio desiste de ser rio e ainda não sabe ser mar.

Raul chamaria isso de transmutação. Maggie, de atenção radical. Eu chamo de vida em aberto.

O que posso dizer é que, mesmo sem margem, sigo tentando.

Zumbindo um pouco, escrevendo com dúvida, e inventando um caminho junto com quem também cansou de repetir a mesma receita.

Talvez você esteja aí, do outro lado, se sentindo meio mosca, meio cowboy, meio idiota.

Se estiver, bem-vinda(o).

A gente pode até não saber para onde estamos indo.

Mas, pelo menos, não estamos só esperando a morte chegar.

—X—

Você já viveu um entre tempos? Me conta como sobreviveu a ele? *rs

As minhas perguntas aqui não são por educação não. Eu realmente me interesso pelas memórias, pensamentos e sentimentos que os meus textos possam provocar em você.

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Pra fechar, se você quiser aprofundar ainda mais nesse conceito de in between, vou te deixar convites, ó:

  • Ouça/veja o episódio “Ana Paula Franzoti: transição de carreira, até quando adiar?” do Entrelinhas S/A. Foi um papo muito legal sobre finais de ciclo e recomeços. Aqui no Spotify ou aqui no Youtube

  • Ouça o episódio “Quem sou eu sem o meu crachá", do podcast Na volta a gente se encontra, projeto que eu lancei recentemente com Carol Genovesi, amiga que o mundo corporativo me deu. Aqui no Spotify

Ah! E fique de olho nos canais do Entrelinhas S/A. Em breve, irá ao ar um conteúdo que marcará o entre tempos do nosso videocast. Com o fim da segunda temporada e o início da terceira previsto somente para o fim do Q3, vamos soltar conteúdos inéditos para as mentes inquietas que nos acompanham. 

Até a próxima!

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