Essa news segue cumprindo o seu “entre tempos" por conta da minha licença maternidade. Então, até eu voltar a escrever conteúdos inéditos semanais, continuarei dividindo aqui os bastidores dos textos mais comentados do meu Linkedin.
Hoje vamos falar de outro tipo de ser, comumente encontrado na selva corporativa: o imbecil convicto.
Este texto nasceu como resposta à minha indignação diante de algumas pessoas que decidiram me ignorar no ano passado. Não eram pessoas desconhecidas. Era gente do meu círculo próximo de trabalho com quem eu achei que havia estabelecido uma relação para além do crachá.
Ah, a ingenuidade! *rs
Perder o sobrenome corporativo é tipo um chá revelação das conexões: as verdadeiras de um lado e as por interesse do outro. E você só saberá disso no dia do “evento".
Não foram muitas, é verdade. Mas mexeu tanto comigo, que comecei a relembrar todas as vezes que estive diante de um executivo imbecil. Spoiler: foram muitas.
Bora ler? Volto nos créditos com informações adicionais. =)
—X—
O imbecil convicto
"Vocês não são pagos para dar ideias"
Foi essa frase, dita por um chefe, que motivou o meu primeiro pedido de demissão.
Eu tinha vinte anos recém-completados, estava feliz da vida como estagiária, mas resolvi desistir diante da primeira dificuldade.
Corta pra hoje, duas décadas depois. O que eu aprendi com essa situação?
Aprendi que se eu fosse largar o trabalho toda vez que um imbecil resolvesse demonstrar seu poder dentro de uma empresa, talvez fosse melhor desistir de procurar emprego.
Eu não desisti.
E hoje coleciono imbecilidades para contar. Incluindo as que eu mesma disse em momentos em que eu me achei poderosa.
Porque se tem um ambiente que nos gradua para sermos imbecis, esse ambiente se chama mundo corporativo.
Olha só, nada pessoal, ta? Estou por aqui também.
Por ora, encontro-me em um "não-lugar", uma vez que não estou empregada e nem procurando emprego. Mas não quero parecer ingrata.
Porém, mente vazia, oficina do diabo. Já dizia nossos avós.
E se tem algo que eu tenho OSTENTADO é uma coisa que, provavelmente, você tem pouco, que é TEMPO.
Ter tempo era o meu sonho-burguês
Tem gente que deseja carro, casa, bolsa de grife. Eu sempre sonhei em ter tempo.
E agora que tenho, me surpreendo com os pensamentos que surgem só porque tenho tempo de pensá-los.
E tenho pensado muito nos imbecis.
Se você me perguntar com que frequência os vejo no mundo do trabalho, eu te direi:

Quem são, onde vivem, do que se alimentam os imbecis?
Antes de você concluir que este artigo é apenas um desabafo raivoso de uma pessoa que passou os três últimos dias irritada por causa de uma conjuntivite (e então você terá razão), quero te contar o que é um imbecil.
A palavra é meio forte, eu sei.
Mas acredito que essa seja a melhor generalização para enquadrarmos pessoas que:
Usam da autoridade para diminuir alguém
São donos da razão
Legislam em causa própria o tempo todo
Dão ordens sem abrir espaço para o diálogo
Confundem estudo (diplomas) com inteligência
(Preencha aqui a atitude de um imbecil que te deixa P da vida)
Ou nas palavras de Mario Sérgio Cortella:
"A imbecilidade em larga escala resulta de uma incapacidade decidida de não pensar melhor, de não refletir. Pessoas imbecis têm uma retórica furiosa. Isto é, na hora de tentar convencer você de algo, não buscam convencer. Buscam te derrotar. Buscam te aterrorizar. Gritam, impõem o pânico pra ver se você, em vez de argumentar, recua".
O problema no mundo corporativo é que quanto mais você ascende na hierarquia empresarial, mais poder você tem.
E quanto mais poder, maior o risco de você se tornar um imbecil.
Isso porque você terá um orçamento maior, um time com mais gente, será convidado (e mimado) para eventos importantes e outras coisas que vão te dar um sentimento incrível de onipotência.
Essa galera que se acha dona do mundo pode ser dividida em dois grupos:
Imbecis convictos: é aquela pessoa que sabe que é imbecil, age como um imbecil e tem orgulho de ser imbecil;
Imbecis eventuais: é aquela pessoa que age como imbecil só para não ser excluído do grupo dos imbecis convictos. Afinal, todo mundo gosta de ser mimado, não é mesmo?
Os convictos são minoria. Mas Ô MINORIA BARULHENTA, hein?
Você certamente conhece um imbecil convicto. Pensa aí, dois segundos.
Se não te veio nenhum nome na cabeça, atenção. Pode ser você.
Calma. Não mate a mensageira.
Imagina que a imbecilidade é como um vírus. Tem gente sintomática e não-sintomática. Com sorte, você pertence à segunda classe. Espalha, mas não manifesta.
Porque essa é uma consequência clássica da imbecilidade: quando somos expostos a ela por um período prolongado, vamos perdendo a sensibilidade.
Assim, atitudes imbecis vão se tornando cada vez mais imbecis, até atingirem patamares impensáveis e imperceptíveis na mesma proporção. E o problema é que a gente vai normalizando a imbecilidade no mundo do trabalho.
Portanto, é perfeitamente possível que você, que acha um absurdo alguém distratar um garçom em um restaurante, não note que um executivo está sendo um completo imbecil com um fornecedor ou com um cliente, por exemplo.
E eu não estou falando sobre abusos explícitos.
A imbecilidade na esfera-corp é sorrateira e disfarçada. Ela pode ser tão sutil quanto:
Um ghosting -> "ocupado e importante demais para te dar um retorno".
Um feedback -> "o que eu acho sobre você é soberano. Não discuta".
Uma política -> "vou dificultar a sua vida só para mostrar quem manda".
E sabe quem é a melhor amiga da imbecilidade?
A falta de tempo.
Sim, porque na correria é mais fácil reproduzir comportamentos do que contestá-los.
Contestar dá trabalho.
E os imbecis convictos lutarão com todas as forças para fazer todos acharem que o imbecil é você.
Atenciosamente,
Uma imbecil em recuperação
—X—
E aí? Lembrou de alguém? *rs
Não precisa ser chefe para ser um imbecil convicto. O mundo tá cheio de gente que sofre da síndrome dos pequenos poderes e, portanto, passível de se contaminar com esse terrível vírus da imbecilidade.
Depois que eu postei este texto nas minhas redes, um fato curioso aconteceu. Algumas pessoas começaram a dizer que o conteúdo lembrava um pequeno livrinho chamado “As leis fundamentais da estupidez humana", do Carlo Maria Cipolla.
Curiosa que sou, corri pra ler e me apaixonei.
Além de te recomendar essa leitura, vou deixar aqui também um dos gráficos do livro que eu recriei recentemente para fazer um post no meu Linkedin. Dá uma olhada:

Na visão de Cipolla, uma pessoa estúpida é aquela que consegue a proeza de, por meio de suas ações, provocar prejuízos sociais e prejuízos privados AO MESMO TEMPO.
Depois de ler o livro, concordei com os comentários. Há similaridade em nossas ideias, mas Cipolla foi, sem dúvidas, muito mais eficiente e elegante na hora de provar seu ponto.
Então, pra você que é leitor assíduo dessa news, ficam aí duas referências: os estúpidos do mestre Cipolla e os imbecis dessa aprendiz de escritora que vos fala semanalmente.
Ah! E antes de me despedir…
O número de leitores dessa news só cresce quando eu faço posts no Linkedin. Como esta atividade deve ficar suspensa por um tempo, é capaz que eu enfrente um longo inverno por aqui….*rs
Se fizer sentido pra você, que tal indicar a Ninguém precisa para alguém? Pode ser um grupo de zap, um post no Linkedin, uma recomendação no Insta (to lá também como @gabiteco.oficial, pode marcar o meu perfil que eu resposto =) etc.
O link de assinatura, pra facilitar ó: https://ninguemprecisanewsletter.beehiiv.com/
Obrigada e até a próxima!

