Quando alguém me diz “preciso me vender melhor", eu penso: “será que precisa mesmo?".
Ser mentora foi o maior presente que a vida autônoma me deu. Além de pensar junto com as pessoas e ajudá-las a encontrar um micro-passo possível em suas carreiras, as perguntas que elas trazem dão mil e uma ideias de conteúdo.
E, a cada dez mentorias, oito pessoas trazem um relato mais ou menos assim:
“Meu trabalho é bom, entrego além do que me pedem, minhas avaliações estão ótimas, não tenho problemas de relacionamento, MAAAS (o “mas” sempre vem) promoção e dinheiro no bolso que são bons, nada".
O que está acontecendo aqui?
Algumas hipóteses:
A pessoa não está fazendo uma leitura correta do seu trabalho. Então aquilo que ela chama de “entregar além do que é pedido” talvez seja só a versão corporativa da frase que toda criança dos anos 1990 ouviu da própria mãe: você não fez mais do que a sua obrigação, bebê.
Injustiça? Isso com certeza. O mundo não é justo. Nunca foi. Então, a pessoa pode ser, de fato, TOP PERFORMER (fica até mais importante escrito em inglês, fala aí?) e, mesmo assim, estar sendo preterida por alguma injustiça “normal” do mundo corporativo.
Ela não entendeu que chegou num determinado momento da carreira que “só”(BEM entre aspas) fazer um bom trabalho não garante ascensão dentro da pirâmide corporativa.
Tem mais hipóteses, ta? Mas vou me concentrar nestas três porque, a qualquer momento, você pode me trocar por um meme de gatinhos ou uma notificação do slack (argh!).
Leitura da hipótese 1:
Chefes ruins, dão feedbacks ruins. Se ninguém na organização está dizendo ao indivíduo que ele não é um alecrim dourado, aí fica difícil mesmo construir visão de carreira neste ambiente.
Minha recomendação, caso você suspeite que isso possa estar acontecendo com você: tenha um mentor dentro da empresa. Alguém que consiga ler o cenário de maneira precisa e te mandar a real.
Leitura da hipótese 2:
Trabalhe a sua empregabilidade e fuja deste tipo de injustiça. Mas lembre-se: em outros lugares você vai encontrar outros tipos de injustiças.
Por isso a escolha precisa ser consciente: ficar e driblar este problema, ou sair e driblar novos problemas.
O mundo adulto é assim bastante sem graça mesmo, não tem pra onde fugir.
Leitura da hipótese 3:
O meu preferido de resolver porque está mais acessível a todos. Neste cenário, em geral, a pessoa precisa desenvolver novas habilidades e, ao contrário do que se pensa, não é sobre comunicação.
Quando a demanda é “preciso me vender melhor” as pessoas acham que precisam sair pelos corredores da empresa falando bem delas mesmas.
Mas o jogo é outro. O que falta normalmente é:
Entender o código cultural da organização. Aqui a pergunta central é: quem está sendo promovido está sendo promovido por quê? E veja: o exercício aqui é ler o contexto. O discurso oficial é só isso mesmo: um discurso oficial.
Desenvolver hoje as competências exigidas para o próximo nível. Líderes, em geral, buscam reduzir riscos: se você não for a opção mais segura, provavelmente não será escolhido. Estar um passo à frente dos seus “concorrentes” é sempre uma boa estratégia.
Trabalhar bem o seu networking. E aqui existe um MUNDO de coisas a serem desenvolvidas, inclusive muitos mitos que precisam cair para que o seu trabalho seja notado e o seu nome circule dentro da organização.
Como networking é um assunto muito grande, hoje eu quero falar de apenas um aspecto: o mito do talento.
Mas antes, um alerta:
Se você é do tipo que curte acompanhar “séries", fica por aqui porque nas próximas semanas seguirei abordando o tema networking por outros ângulos, daquele jeitinho especial que você que é leitor antigo está acostumado: cheio de referências, “causos”, memes e um bocado de coisas para pensarmos juntos.
Mas se você prefere não ter compromisso ou anda com ojeriza (RÁ, dúvido que a IA escolheria a palavra OJERIZA. Provei que sou humana agora? *rs) de qualquer coisa que faça a sua lista de pendências crescer, não se preocupe.
O conteúdo de quarta-feira tem começo, meio e fim. Afinal, se ninguém precisa dessa news, imagina então ter de ficar PRESO num conteúdo que nunca tem fim.
Seja livre. E seja feliz. Obrigada. De nada.
Agora sim, vamos ao MITO DO TALENTO.
Semana passada tive um dia de trabalho que foi mais ou menos assim: tomei café com um amigo head hunter, mentorei uma trainee pela manhã, almocei com um head de marketing e, a tarde, mentorei um diretor de banco e fiz uma reunião com um empreendedor do ramo de tecnologia.
E nos intervalos, respondi mensagens, emails e dei conta das pendências corriqueiras do meu papel atual.
Em um único dia, falei com pessoas de senioridade e universos diferentes, com bagagens e repertórios muito distintos.
E daí, mané? Você pode estar me perguntando.
E daí que muitos podem pensar que eu tenho um talento natural para fazer networking. E talvez eu até tenha, ta? Não descarto essa hipótese, mas ela não invalida o que direi na sequência, que tem muito mais embasamento do que a minha ou a sua opinião sobre o tema.
A ideia de que networking é posição, e não talento social, nasce da sociologia das redes, especialmente do trabalho The Strength of Weak Ties, de Mark Granovetter.

Dá o play nesse vídeo curtinho, em que o próprio Mark explica o conceito
Ele mostra que oportunidades circulam menos pela intensidade das relações e mais pela estrutura das conexões: pessoas que transitam entre grupos diferentes funcionam como pontes que levam informação nova de um lugar a outro.
Nesse olhar,
influência não depende apenas de carisma ou extroversão, mas da localização que alguém ocupa entre mundos sociais distintos.
É daí que surge a figura do broker, quem conecta universos que normalmente não se encontrariam e que ganha relevância não por falar melhor, mas por reduzir distâncias dentro da rede.
Talvez eu tenha sido broker a vida toda por nutrir múltiplos interesses desde criança. Com 11 anos, por exemplo, eu praticava futebol e ballet na escola. Eu literalmente tirava a chuteira para por a sapatilha. O "detalhe"? Eu era a única aluna a fazer parte dos dois grupos de meninas.
Com quinze anos eu fiz aula de taquigrafia. Sim, TAQUIGRAFIA. (Tô rindo aqui de desespero das minhas aleatoriedades, mas acho que vou conseguir provar meu ponto).

Taquigrafia é um sistema de escrita abreviada que utiliza sinais provenientes da geometria ou das letras comuns. Trata-se de uma escrita fonética, na qual cada sinal taquigráfico representa um som específico ou conjuntos de sons (def. da internet).
Testar coisas diferentes sempre me abriu portas em grupos dos quais eu não faria parte normalmente. Isso que eu faço desde sempre com naturalidade pode ser visto como um talento.
Porém, quando essa base conceitual do Mark Granovetter entra na leitura cotidiana, o efeito é tirar o peso moral do networking como habilidade quase performática.
Em vez de “ser bom” ou “ruim” com pessoas, a proposta passa a ser reconhecer territórios já habitados: ambientes, comunidades e conversas onde alguém circula sem nomear como rede.
A ação prática deixa de ser expansão artificial de contatos e vira um exercício de consciência estrutural, perceber onde já existem pontes possíveis e qual valor emerge daí.
Nesse sentido, mapear espaços onde se está presente não é uma técnica de relacionamento, mas um autodiagnóstico da própria geografia relacional.
Agora eu te pergunto:
Geograficamente, como você está no WAR corporativo, hein?

Você vai me julgar se eu confessar nunca ter jogado WAR? Sim, fiz aula de taquigrafia e nunca joguei o WAR, fazer o que? Eu preferia o Jogo da Vida ou o Banco Imobiliário.
Em outras palavras, por quais grupos você circula e quais grupos você não acessa?
Se você acha que isso é politicagem e não faz nenhuma diferença, volte para o começo dessa news e leia a abertura novamente. Um spoiler: fazer aula de comunicação assertiva (podemos falar sobre este termo em outro momento? Peguei bode!) não vai resolver o seu problema.
E, pra finalizar, a fofoca inteira, caso você esteja curioso:
a jovem Gabi Teco de quinze anos já sonhava em ser jornalista e achou que a taquigrafia poderia ajudá-la a fazer anotações rápidas em sua caderneta de repórter.
Errada ela não estava.
Só não contou que, em poucos anos, o gravador estaria em qualquer telefone.
Tampouco imaginou que o gravador passaria a transcrever, resumir e, com o prompt certo, escrever a matéria e publicar por ela.
A jovem Gabi perdeu tempo?
Ou aprendeu desde cedo a construir pontes entre dois mundos desconectados?
Até segunda!
Gabi Teco
Sua vez: me conta o que ficou pra você desta edição?
Aqui eu facilito a sua vida, ó.
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( ) Achei que todo mundo precisa saber que…
( ) Vou levar pra pensar essa coisa do/da…
( ) Li e fiquei igual a Gloria Pires (não consigo opinar) porque…
( ) Odeio múltipla escolha, então farei uma redação livre a partir daqui…
( ) NAD (Nada a declarar)
