Você já olhou brevemente para um desconhecido e de repente percebeu que ele tem uma vida inteira que você nunca vai conhecer?
Estou no banco de trás do carro, com a cabeça encostada no vidro. Meu pai dirige, minha mãe ao seu lado. Silêncio. Meu irmão mais novo dorme de atravessado. Parte do corpo apoiada em mim e a outra parte no nosso irmão mais velho, que está no meu extremo oposto. A descida pra praia é lenta. Feriado. Mentalmente já cantei parabéns algumas vezes. “Feliz quatro horas de trânsito", digo a mim mesma. Não é hoje. Pode ser qualquer dia dia nos anos 1990. Nada pra fazer, olho pela janela.
Aí acontece.
Em algum momento entre duas acelerações rápidas e curtas, eu noto uma mulher sentada no banco da frente no carro ao lado. Ela está olhando para o céu. Parece triste. E eu fico pensando: o que ela está olhando? Ela está com medo de algo? Com saudade? Ela tem filhos esperando em casa? Ela ama o que faz?
Por uns três segundos, aquele carro deixa de ser um obstáculo entre mim e a praia, e aquela mulher vira uma pessoa inteira.
Três segundos.
Depois volto pro meu mundo.
Existe uma palavra para o que aconteceu naquele momento.
Em 2012, um americano chamado John Koenig publicou no Tumblr uma palavra que ele mesmo havia inventado. Sonder.
Sonder: a realização de que cada pessoa aleatória que você cruza tem uma vida tão vívida e complexa quanto a sua, habitada por suas próprias ambições, amigos, rotinas, preocupações e loucuras herdadas. Uma história épica que continua invisível ao seu redor, como um formigueiro se espalhando fundo no solo, com passagens elaboradas para milhares de outras vidas que você nunca saberá que existiram, em que você pode aparecer apenas uma vez, como um figurante tomando um café ao fundo, como um borrão de tráfego passando na estrada, como uma janela iluminada ao entardecer.
A palavra não é oficial. Nenhum dicionário sério a reconhece.
Não importa.
Ela viralizou de um jeito que poucas palavras inventadas conseguem.
O motivo?
Talvez porque nomeava algo que todo mundo já havia sentido e não sabia como dizer.
E aqui está a coisa que não sai da minha cabeça desde que descobri sonder:
Por que precisamos inventar uma palavra para isso?
Eu já sabia que as outras pessoas existiam. Você também.
Todo mundo sabe que as outras pessoas têm vidas, medos, saudades, uma playlist favorita, e pelo menos uma birra completamente irracional com algum colega de trabalho.
Então por que o nome importou tanto?
Em 2005, um escritor americano chamado David Foster Wallace fez um discurso de paraninfo numa pequena faculdade de artes liberais chamada Kenyon College. Ele começou com uma historinha:
Dois peixinhos jovens estão nadando e encontram um peixe mais velho vindo na direção oposta. O peixe mais velho acena e diz: "Bom dia, rapazes. Como está a água?" Os dois peixinhos nadam um pouco mais e por fim um deles olha pro outro e pergunta: "Que diabo é água?"

Na animação Soul da Disney há um diálogo muito parecido. Assista Soul. Vale muito à pena.
O discurso se chama "This is water." A Piauí publicou em português com o título "A liberdade de ver os outros", na seção chamada "Despedidas", dedicada a textos de escritores mortos.
DFW morreu em 2008. O mesmo ano da publicação.
Não vou me estender nessa coincidência porque o texto não é sobre isso. É sobre escolha, atenção, sobre o que fazemos com o que enxergamos.
Mas menciono porque o peso do texto muda quando você sabe que foi escrito por alguém que, de certa forma, já estava se despedindo.
O argumento central de DFW é simples e devastador:
“As coisas mais óbvias, que estão na nossa cara o tempo todo, costumam ser as mais difíceis de enxergar".
Como a água. Ou o oceano.
A nossa configuração padrão, ou default setting, como ele chama, é o egocentrismo.
Não o egocentrismo de achar que você é melhor que todo mundo.
O egocentrismo de fábrica: você é o protagonista da sua história, e todos os outros são coadjuvantes, obstáculos, ou cenário.
Não é falha de caráter. É piloto automático.
O metrô lotado é um inconveniente. A fila no supermercado é uma agressão pessoal. O trânsito existe para te atrasar especificamente.
E as pessoas ao redor? São extras.
Sonder é o bug no piloto automático.
É o momento em que o sistema falha por três segundos e você enxerga a mulher no carro como uma pessoa inteira.
No trânsito, pode ser incômodo, mas é inofensivo e “passa rápido".
No trabalho, é outra conversa.
Pensa comigo: quantas vezes você participou de uma reunião onde cada pessoa estava claramente pensando na própria pauta?
Onde o colega que "sempre atrasa o projeto" é um obstáculo para o seu trabalho, não uma pessoa com pressões que você não conhece? Onde a liderança fala de cultura, de pessoas, de propósito, mas não sabe o nome de ninguém no andar de baixo?
O default setting corporativo é exatamente o mesmo da minha história no trânsito. A diferença é que no escritório a gente construiu uma linguagem inteira para disfarçar isso.
Nos anos 2010, o mundo do trabalho "descobriu" a empatia.
Aí virou treinamento, competência de liderança, item da avaliação de desempenho…
A palavra foi varrida pelo mercado, esvaziada e devolvida sem o significado original.
Sonder talvez passe pelo mesmo processo. Talvez não.
O que me interessa (e o que vou explorar em abril) é o que acontece “antes” disso.
Quando a palavra ainda faz sentido.
Ainda faz sentir.
Se você assistiu The Bear, você conhece sonder em forma de ficção, mesmo que nunca tenha ouvido a palavra.

Essa conexão entre sonder e The Bear foi feita por Alice Crisci, autora convidada da newsletter que eu mais amo (@floatvibes / Vibes em análise) e que me inspirou a escrever este conteúdo. A news é paga, mas vou deixar o link aqui para os curiosos e também para dar os créditos para a Alice. Em tempo: também estou assistindo The Bear e concordo com ela! =)
A série começa pela história de Carmy, o chef que volta para o restaurante da família. Mas conforme as temporadas avançam, você percebe que cada pessoa ao redor tem um universo completo.
Sydney com a sua ambição e os seus medos, Richie com a saudade que ele mal consegue nomear, Marcus com a mãe doente e o sonho de fazer sobremesas na Europa.
Você entra pela porta de um personagem e descobre que existe uma cidade inteira atrás dela.
É isso que sonder faz: abre a porta.
(Não precisa ter assistido para continuar lendo. Mas se ainda não foi, vai.)
O que me fascina não é a palavra em si, e sim o fato do termo ter viralizado.
Que milhões de pessoas viram aquela definição no Tumblr e pensaram:
“Isso. Era exatamente isso que eu sentia e não sabia nomear".
E aí eu fico com a pergunta do DFW virada ao contrário:
Se a gente já sabia que a água existia, por que precisou de alguém para perguntar "que diabo é isso?" pra gente se dar conta?

Da série “que diabos é isso” do momento, se você tem um adolescente em casa (ou uma criança com acesso a telas, que é o meu caso) já deve ter ouvido a expressão SIX-SEVEN, com uma entonação muito peculiar (six seeeeeveeeen) e um balanço de mãos específico. Há uma avalanche de vídeos na internet explicando o seu significado. Se você sofre de FOMO, experimente digitar “67 meme” no Google e veja o que acontece (testei no celular e no computador e dei risada com o efeito engraçadinho que o pessoal do Google providenciou)
Isso é o que quero explorar em abril.
Não só sonder enquanto potencial de virar o “conceito do momento".
(Até porque tem uma outra palavra correndo por fora, que foi a sensação do SXSW, e que eu também trarei pra cá).
Mas o que acontece com essa família inteira de palavras quando ela encontra o mundo do trabalho, onde a gente passa a maior parte da vida acordada, onde as relações têm hierarquia e avaliação de desempenho, e onde o default setting tem consequências que vão muito além de um desconforto no trânsito.
Nas edições de quarta, quero abordar o que acontece quando a gente para de tratar o outro como parte do cenário.
Não sei exatamente onde isso vai chegar, minha escrita é assim.
Mas sei de onde parte: da resistência que temos em perceber o outro de verdade, do que isso custa no trabalho, e do que significa ser livre num mundo em que cada vez mais coisas são feitas por máquinas.
Fica?
Acho que o mergulho nessa água vai valer à pena! =)
Até segunda!
Gabi Teco
Sua vez: me conta o que ficou pra você desta edição?
Aqui eu facilito a sua vida, ó.
Escolha o início de uma frase, aperte o botão “responder” no seu e-mail e complete com outra ideia.
( ) Achei que todo mundo precisa saber que…
( ) Vou levar pra pensar essa coisa do/da…
( ) Li e fiquei igual a Gloria Pires (não consigo opinar) porque…
( ) Odeio múltipla escolha, então farei uma redação livre a partir daqui…
( ) NAD (Nada a declarar)
