“Você notou como todas as pessoas aqui se parecem?”, perguntei ao meu marido.
Estávamos sentados, observando tranquilamente a paisagem em um resort de alto padrão no interior de São Paulo.
No canto, atrapalhando a minha vista, uma rodinha com três casais me chamou atenção. Entre as mulheres, o mesmo padrão de roupas, óculos, cabelos. Entre os homens, idem. Pareciam todos a versão “feminina” e “masculina” de um único modelo.
Primeiro eu me diverti com um pensamento intrusivo:
“Se rolasse uma troca de casais, quanto tempo eles levariam para notar que estavam com o parceiro errado?".
Ri, calada. E segui pensativa.
Por que está todo mundo tão parecido? Faz aí o teste do pescoço, especialmente se você estiver no trabalho. Você vai se surpreender, garanto.
Tenho hipóteses:
A era da média, de Alex Murrell. Ou, como eu apelidei, a “ditadura do mediano”;
Prego que se destaca, leva martelada: o preço da identidade de grupo;
Tudo é ótimo, mas nada é inesquecível.
Bora mergulhar?
1. A era da média, de Alex Murrell. Ou, como eu apelidei, a “ditadura do mediano”
Talvez Alex Murrell não estivesse pensando exatamente em um resort no interior paulista quando escreveu The Age of Average, mas ele teria se sentido em casa.
Em seu ensaio (link no final), Murrell defende que entramos numa era em que tudo, do design de marcas aos cortes de cabelo, se nivelou por baixo.
Não por incompetência, mas por excesso de cálculo. Ousar pressupõe assumir riscos. E, ao que tudo indica, andamos meio avessos a eles.

The age of average(2020): Nos anos 90, dois artistas russos (Komar e Melamid) contrataram uma empresa de pesquisa para descobrir o que as pessoas mais valorizavam em uma obra de arte. Foram mais de 11 mil entrevistados em 11 países. O resultado? Todo mundo queria mais ou menos a mesma coisa: paisagens azuis, com montanhas, algumas pessoas, animais e um clima de tranquilidade genérica (imagens acima). Ou seja: o que era pra ser uma expressão única de cada cultura virou uma coleção de quadros praticamente idênticos.
No mundo corporativo, o fenômeno é ainda mais gritante. Os escritórios viraram variações do mesmo estilo open space. Missões e visões possuem a mesma “pegada". E as culturas organizacionais parecem ser Ctrl+C e o Ctrl+V umas das outras.
E os profissionais? Bom, a coisa não anda muito diferente.
A gente acabou se moldando a uma persona neutra, do tipo que se encaixa e não incomoda. A média virou não só destino, mas estratégia de sobrevivência.

Jorginho, personagem do humorista Fausto Carvalho, que satiriza o Faria Limer. “O beach venceu” é um dos seus jargões.
Mas eis o paradoxo:
quanto mais iguais tentamos ser, mais invisíveis nos tornamos.
Murrell nos lembra que, num oceano de genéricos, destacar-se é o único caminho para ser lembrado.
Não só no jeito de se vestir em um resort, mas principalmente no mundo das ideias.
Mas será que no trabalho esse risco vale a pena?
2. Prego que se destaca, leva martelada: o preço da identidade de grupo
Na prática, quem destoa demais costuma virar alvo fácil.
Seja porque falou o que ninguém queria ouvir ou porque não demonstrou entusiasmo suficiente pelo “novo-plano-estratégico-revolucionário” feito pela diretoria.
Essa adaptação, aliás, acontece antes mesmo de alguém pedir. A gente aprende o código e rapidamente nos adaptamos a ele.
Aí o fundo de Zoom vira montanha genérica, o vocabulário ganha termos como “call”, “deadline” e “mindset” e, aos poucos, a originalidade vai sendo editada em nome da aceitação.
Tudo isso sem uma palavra de comando. Até porque o desejo de pertencer é silenciosamente eficiente.
A psicologia social tem nome pra isso: pressão para conformidade.
Nos anos 50, o psicólogo Solomon Asch fez um experimento que mostrou que, diante de um grupo coeso, muitas pessoas preferem errar junto do que acertar sozinhas.
Mesmo quando a resposta certa está ali, bem clara. Agora adiciona a isso um bônus atrelado à avaliação dos pares e o risco de parecer “do contra” e pronto, temos a receita da auto-anulação sutil.

Experimento de Asch (1951): voluntários eram colocados em uma sala com atores que, em voz alta, davam respostas claramente erradas sobre o comprimento de linhas desenhadas em um cartão. Resultado? A maioria dos participantes preferia errar junto com o grupo do que discordar sozinho.
E não se trata só de evitar o erro. O que mais assusta é parecer desencaixado do resto.
Em um ambiente onde tudo é calibrado para a harmonia (visual, comportamental, emocional), qualquer sinal de singularidade vira ponto de interrogação.
Você não vai ouvir um “não seja você mesmo”, mas vai sentir em cada reunião em que sua ideia não “ganha tração”.
O curioso é que essa censura raramente vem de fora. Vem da gente. A gente mesmo vai se moldando, silenciando e polindo.
Como se "ser médio" fosse um escudo. Um jeito garantido de não errar e permanecer no jogo.

Anos atrás, essa foto circulou nas redes mostrando o padrão das alunas do curso de odontologia de uma universidade. “Loira de odonto” foi o termo cunhado à época.
Mas será que permanecer do mesmo jeito, todo dia, é o mesmo que pertencer de verdade?
3. Tudo é ótimo, mas nada é inesquecível
Talvez a essa altura a gente nem precise mais de um grupo para se moldar. A homogeneização ganhou escala industrial e tem nome: algoritmo.
Ele sugere, mostra o que mais performa, o que mais vende. E adivinha? É sempre uma variação da mesma coisa.
O algoritmo, ao recompensar o que já deu certo, acaba sufocando o que poderia ser novo.
E o problema é mais amplo: não é só o feed que ficou previsível. Os discursos da liderança, os slides de estratégia, os valores organizacionais…quase tudo nas empresas parece ter saído da mesma fábrica invisível.
A IA generativa, do tipo ChatGPT, também alimenta esse ciclo. Ela aprende com o que já existe e ajuda a replicar esse padrão com precisão e eficiência.
É uma lógica que favorece o que é “estatisticamente seguro”, mas raramente o que é ousado, estranho ou genuinamente criativo.
Assim, o sistema que nos prometeu mais liberdade para criar, paradoxalmente, está nos empurrando para um mesmo lugar comum.
Um lugar onde tudo é ótimo mas nada é inesquecível.
Ta! E daí, Gabi?

Meme do menino fã do Raça Negra
Lembrei da cena no resort. Os casais idênticos, as roupas coordenadas, os sorrisos polidos. Pode ser que estivessem felizes. Pode ser que fosse só coincidência estética.
Mas, naquele momento, parecia tudo cuidadosamente moldado para caber no grupo e na foto. E talvez seja esse o risco: caber tanto nos moldes que a gente vai sumindo dentro deles.
Engraçado é que foi depois da cena descrita no começo dessa news que postei a edição mais recente do Plantão da semana Link&Disney, um boletim que eu tenho publicado no LinkedIn toda sexta-feira (link no final).
Trata-se de um post-curadoria das TRENDS da rede profissional, escrito do meu jeitinho: crítico, irônico e com um leve deboche ao universo que me formou e, às vezes, me cansa.
Curiosamente, o post de sexta teve um alcance grande, fora dos meus (flopados) padrões. Ironizei o sistema de dentro dele, de um jeito arriscado. Mas o objetivo era (e seguirá) nobre: conquistar mais leitores para essa news aqui.
E deu certo. Chegaram mais de quarenta novos assinantes e quase duzentas novas conexões lá no Linkedinho.
Agradei todo mundo?
Claro que não.
A prova foi um feedback via whatsapp que recebi de um colega próximo, que achou o post muito diferente do que eu venho produzindo. "Não li e nem lerei", disse o amigo.
Entendi que causei estranhamento. Cheguei a questionar se eu teria “me perdido” na personagem ou se sigo acreditando que ousar vale à pena.
Fiquei com a segunda opção.
Tenho medo dos riscos? Claro. Mas tenho ainda mais medo de, distraidamente, vestir o uniforme invisível do conformismo e nunca mais conseguir tirá-lo.
Então, da próxima vez que você notar que está todo mundo meio igual no look, no discurso, no feed…aproveita.
Pisa um pouco fora do molde. Testa. Arrisca um pouquinho mais.
E é justamente o que destoa, o que incomoda de leve, o que parece um erro de enquadramento, que tem potencial de se tornar inesquecível.
Ou não.
Só saberemos se continuarmos tentando.
—X—
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Tem sido tão raro topar com pessoas dispostas a trocarem 15 minutos de vídeos rápidos por leituras mais longas que, sem a força da rede, não conseguirei aumentar esse bonde.
Conto com você!
—X—
Bônus track: curadoria da edição de hoje
The age of average
O artigo de Alex Murrell é um manifesto sobre como tudo anda igual. Do design de produto às capas de livro, das marcas aos prédios, o que era pra ser original virou genérico. Murrell reúne imagens, dados e bons tapas na cara pra mostrar como a busca por aceitação e performance vem nos deixando cada vez mais médios e menos memoráveis.
Experimento de Asch
O vídeo mostra como a gente tende a concordar com o grupo, mesmo quando o grupo claramente está errado.
Pressão por conformidade
O "elevator experiment" ficou famoso como uma demonstração divertida da pressão social por conformidade. Ele foi conduzido pela equipe do programa Candid Camera em 1962 com base nos princípios da psicologia social.
Plantão da semana Link&Disney
O post que “bombou” (para os meus padrões, é claro!*rs) e trouxe mais de 40 novos assinantes pra cá! =)
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Entrelinhas S/A com o tema “Profissionais genéricos: estamos vivendo a era da padronização?”
Neste episódio, eu, André Conejo e Pedro Prochno mergulhamos neste tema, que tem TUDO a ver com o texto de hoje da Ninguém precisa.
Até a próxima!

