Existe a rede que é sua. E existe a rede que pertence ao seu cargo. Você só descobre a diferença no dia em que o crachá desaparece.

Semana passada eu deixei uma pergunta em aberto: afinal, por que estamos no LinkedIn?

A resposta completa não cabe inteira aqui. Mas o que aconteceu comigo depois que deixei o crachá para trás ajudou a esclarecer uma parte importante dessa história.

Depois que pedi demissão de um papel executivo de CEO, que me colocava à frente de duas publicações muito respeitadas no mundo dos negócios (HSM Management e MIT Sloan Management Review), o medo do desaparecimento me pegou real.

Os primeiros meses foram interessantes. Como a minha entrega havia sido consistente e eu tive a oportunidade de me relacionar com muita gente legal, logo pintaram uns convites para papos que claramente eram “sondagens” para oportunidades de trabalhos.

Aceitei todos os cafés, almoços e encontros sugeridos. Algumas ideias, ainda sem cara de proposta formal, chegaram a me balançar. Neste momento, se você fez direitinho a lição de casa do networking, o seu ego vai lá pro topo da montanha respirar o ar dos campeões.

“Uau, como eu sou valorizada", você pode pensar. Eu pensei.

Entretanto, como a minha saída estava condicionada a ter tempo para pensar no que eu realmente queria fazer, aceitar uma nova proposta formal de trabalho não estava no meu radar. 

Gentilmente eu disse “não, obrigada” para os convites que prontamente apareceram.

E aí…o inverno chegou.

Quando perdemos um sobrenome corporativo relevante a gente efetivamente desaparece para alguns.

Parece triste ou cruel, mas a verdade é que precisamos reconhecer que parte da nossa rede pertence ao nosso CARGO, e não a nós. 

E a consequência disso é que alguns passam a ignorar as tentativas de contatos, outros vão te “cozinhar" numa agenda que nunca acontece (sinal que você caiu na lista de prioridade da pessoa), e alguns poucos permanecerão.

Se você se recolocar rápido em um novo papel equivalente e/ou superior ao que já ocupava, dois fenômenos acontecem:

  1. Convites para novos cafezinhos começarão a chegar (afinal, muitas pessoas vão querer entender o potencial de valor que você passa a oferecer com o novo crachá)

  2. Sua janela de autoconhecimento se fecha antes do chá revelação

Como a ideia não era me recolocar, vivi meses intensos que se transformaram num grande chá revelação de quem realmente me considerava parte da rede e de quem só estava de olho no que o meu cargo poderia oferecer em termos de oportunidades.

Misturar mundo corporativo e chá revelação no mesmo prompt não rolou. Então, precisei usar a criatividade para não confundir a IA do Canva e este foi o resultado medíocre obtido

É em um momento como esse que a gente começa a entender o espaço que realmente ocupa no mundo dos negócios.

Quando a gente nota que parte significativa da nossa rede evaporou, normalmente são dois os caminhos possíveis:

  1. Recolhimento

  2. Hiperexposição

Eu, claramente, peguei a segunda rota.

Notei rapidinho que, motivada pelo medo de desaparecer, engatei a quinta marcha na minha produção de conteúdo. 

De fora, até dava para entender como um movimento natural para uma comunicadora.

Afinal, finalmente eu pude botar no mundo todo o meu potencial criativo que, na função executiva, ficou muito represado (reuniões com o financeiro para discutir fluxo de caixa podem ser bem enfadonhas).

De dentro (de mim), a minha tentativa era de reconstruir presença por meio do alcance e da visibilidade dos meus conteúdos.

Foi nessa leva que surgiu essa news, uma das minhas decisões mais acertadas (Parabéns Gabi Teco, autotapinha nas costas!).

Mas também errei a mão em outras frentes. 

Eu dizia estar “testando formatos", o que era verdade, mas só uma pequena parte dela. A outra verdade revelava um profundo e obscuro medo de não ser lembrada.

Aqui um “hit” do meu Instagram nessa época. Considerei deletar alguns conteúdos antigos (especialmente do TikTok), mas entendi que são registros do meu percurso. Alinhados ou não com o meu novo momento, eles têm uma função: ajudam a contar essa história.

Dois anos depois, sem emprego formal, mas sem nunca ter deixado de parir projetos lindos (o melhor e mais importante deles: uma bebê maravilhosa, que encerra a minha jornada como gestante e mãe de RN na Terra, e abre o capítulo mãe de três criaturas que me apaixonam e me enlouquecem na mesma medida), concluí que a hora de convergir havia chegado.

Cansada da visibilidade tóxica, como escrevi na edição de quarta-passada, fiquei ABSOLUTE OBCECADA na ideia de achar a minha única coisa, “a lá” Greg McKeown, no livro Essencialismo: A disciplinada busca por menos.

(ou você achou que não teríamos um conceito para parecermos mais inteligentes na mesa de almoço da firma?)

O autor defende que a maior parte das pessoas vive no modo “não essencialista”: dizendo sim para quase tudo, acumulando tarefas, projetos e expectativas. O resultado costuma ser dispersão, exaustão e pouco impacto real.

O essencialismo propõe o oposto: uma disciplina consciente de escolher apenas o que realmente importa e eliminar o resto.

Você percebe como essa ideia simples pode SACODIR A NOSSA ALMA E ARRANCAR A NOSSA PAZ? #SenhorMeAjudaAqui

Deixa eu dividir essa nóia com você pra tentar me fazer entender:

Se você pudesse reduzir a sua presença na Terra a uma única coisa que realmente importa, o que seria / o que você faria?

Eu trouxe essa pergunta para a minha produção de conteúdo.

Aí lembrei de uma história que se conta por aí, mas que, até onde consegui apurar, não há registros de que ela de fato aconteceu (boatos que na era da pós-verdade ninguém se importa muito. Então, vamos a ela):

Estavam lá Leo (Leonardo da Vinci) e Michie (Michelangelo) trocando uma ideia num bar renascentista qualquer, quando o pintor perguntou ao escultor:

- Rapaz, como foi que você conseguiu esculpir esse gigante de 5 metros com tamanha perfeição?

Michie, que era dado a ironias, respondeu:

- Pois Davi já estava lá. Eu só tirei da pedra de mármore o que não era o Davi.

Agora pensa aí comigo.

Vamos supor que o seu trabalho seja um blocão de mármore igual a pedra que o Michelangelo tinha no primeiro dia de trabalho. 

Se você dedicasse dois longos anos de serviço para tirar dela tudo o que não é a essência do seu trabalho, o que sobraria?

Aquele cuidado extra entre Expectativa X Realidade nunca é demais né? *rs

Eu fiz esse percurso.

Ser essencialista e encontrar a minha única coisa.

Neste momento, se eu te apresentasse a minha oferta, a chance de conversão seria altíssima. Os gurus de marketing digital ficariam orgulhosos.

Mas a minha única coisa não tem a ver com produto.

É mais sobre um modo de pensar.

Um jeito de olhar o mundo do trabalho que começa pela minha lente, mas que eu sonho ver ecoando por aí, em outras cabeças, se transformando em novos pensamentos.

Para a minha realidade isso se transformou em um mantra simples, mas que tem sido profundamente poderoso:

Produzir conteúdo suficiente e consistente para ser lembrada pelas pessoas certas, pelos motivos certos.

Por muitos anos o meu valor profissional foi percebido pelo o que eu fiz, entreguei, conquistei, liderei… e eu me orgulho dessa história.

Mas e se essa parte for só os pedaços de mármore? O meu “não-Davi"?

Porque hoje eu busco outro lugar.

Aqui estou eu, mais uma vez, num "não-lugar", fazendo o papel de broker (que eu citei nesta edição).

E foi justamente dessa posição meio entre mundos que algumas coisas sobre redes de relacionamento começaram a ficar mais nítidas para mim.

Neste processo, pude entender que o crachá pesa, mas também não gera conexão real. 

Este é o terceiro mito do networking contemporâneo que eu estou tentando desmontar aqui no mês de março.

E se networking não é talento, não é visibilidade e não é cargo, o que é então?

Na semana que vem, quando eu encerro a série, eu vou te contar onde o nosso Davi está escondido.

Até lá,

Gabi Teco

Sua vez: me conta o que ficou pra você desta edição?

Aqui eu facilito a sua vida, ó.

Escolha o início de uma frase, aperte o botão “responder” no seu e-mail e complete com outra ideia.

  1. (   ) Achei que todo mundo precisa saber que…

  2. (   ) Vou levar pra pensar essa coisa do/da…

  3. (   ) Li e fiquei igual a Gloria Pires (não consigo opinar) porque…

  4. (   ) Odeio múltipla escolha, então farei uma redação livre a partir daqui…

  5. (   ) NAD (Nada a declarar)

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Ah. Eu também produzo conteúdo em outras redes.
No Instagram eu penso em público sobre cotidiano, vida e trabalho.
No LinkedIn eu me dedico à traduzir o corporativês para a vida real de um jeito mais objetivo do que aqui na news.
Já em Daleland você conhece meu lado empreendedor. E no site Gabi Teco, o meu papel como mentora.
Vou adorar te receber em qualquer um destes canais! =)

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