Eu voltei a postar no Linkedin e descobri rapidamente que flopar continua sendo uma experiência muito educativa.

(Prepare-se porque agora vem uma sequência saudosista, começando pelo clássico “No meu tempo”…)

Cheguei no LinkedIn quando tudo era mato.

A gente parabenizava colegas por novas formações, fazia texto de recomendação e curtia anúncio de presença em evento (o clássico “Dia 18 estarei no evento X…”)

Não era exatamente algo UAU, mas cumpria ali sua função de rede de conexões profissionais. Ah! Sabe o que acontecia quando você fazia um post? Ele aparecia na timeline das pessoas que te seguiam, acredita? REVOLUCIONÁRIO, não?

Corta para 2026.

Hoje o LinkedIn, opera de um jeito muito similar às outras redes “não corporativas", como Instagram e Tiktok. Se o conteúdo não for altamente “engajador", o flop é certo. 

E isso deve se agravar, já que recentemente a plataforma passou a oferecer a opção de impulsionar posts para usuários comuns, tipo eu e você.

Olha o botãozinho de PATROCINE que aparece pra mim. Segundo o que eu consegui apurar, trata-se de uma versão beta. Mas, né? Acho que é um “vem aí” pesadíssimo.

O que acontece na prática todo mundo já sabe: se o desejo for entregar organicamente, o algoritmo vai testar o seu conteúdo com um pequeno percentual de seguidores. 

Se desempenhar bem, ótimo. Ele distribui pra mais gente. Se não, ele morre ali mesmo.

Se é a ditadura do engajamento que determina o que tem valor e o que não tem em qualquer rede social, o que devemos fazer então para que os nossos conteúdos profissionais sejam distribuídos? Vejo alguns caminhos:

  • Comprar o curso de um guru de marketing digital e fazer tudo o que ele manda. E se não der certo? Bom, aí você já sabe: certamente você não se esforçou mais do que os outros (contém muita ironia);

  • Produzir igual a uma máquina, testando, melhorando, ajustando…caminho bom, mas inviável para 99% das pessoas que não vivem e nem têm intenção de viver de conteúdo;

  • Produzir pouco, com consistência, aceitar o flop e recolher-se à sua insignificância.

“Ah, mas eu tenho três trilhões de seguidores, Gabi”

Tá bom, Alecrim dourado. Dá um play no vídeo abaixo e refresque a sua memória sobre a posição que você ocupa nesse troço chamado Universo.

Nossa insignificância resumida em um vídeo bem curtinho, que você confere aqui

Eu sei, é difícil, eu mesma fico presa nessa armadilha de achar que eu tenho algo muito grandioso para dividir e me esqueço que eu sou, sei lá, só poeira cósmica…

Tá, e daí mané?

E daí que o LinkedIn, está povoado por pessoas que se acham mais importantes do que realmente são, se dando mais relevância do que realmente têm.

Toda vez que a gente reclama de coisas mais ou menos assim por lá ó:

  • Aqui só tem conteúdo produzido por IA e pipipopó

  • Meus posts incríveis só chegam para 5 pessoas e pipipopó

  • Parem de postar sobre X e pipipopó

…o que está acontecendo?

  1. Estamos nos dando importância demais (como eu já disse)?

  2. Mostramos completa desorientação sobre o que estamos fazendo por lá?

  3. Deixe aqui sua alternativa…

Por que você está lá no LinkedIn, a propósito? (Calma. Não precisa responder agora. Eu mesma ainda estou organizando a resposta, e suspeito que ela vai virar assunto da próxima quarta.)

Eu venho me perguntando isso há um bom tempo.

E as respostas oscilaram bastante nos últimos dois anos. Já estive no grupo dos ressentidos, dos contra o sistema, dos críticos do conteúdo ruim…

Então, notei que tudo isso, além de não ajudar, me colocava num lugar de exaustão.

Passei a sentir um cansaço estranho, de precisar estar sempre visível e, ao mesmo tempo, me sentir quase sempre insatisfeita com o resultado dessa visibilidade.

Até porque produzir conteúdo nunca é “só” sobre o ato de postar. 

Existe um processo de produção e também muita aposta antes, durante e depois da publicação.

O caso pessoal

Esses dias eu notei uma mudança significativa no meu humor no meio da tarde. 

DO NADA? Pensei eu. E eu respondi: DO NADA. (eu não verbalizo, mas estes diálogos realmente acontecem na minha cabeça)

E na sequência, quase sem pensar, peguei o celular e chequei uma rede social. Depois de dar dois “atualizar” na página em menos de 1 minuto, uma outra voz gritou:

ARRÁ. Olha aí o seu DO NADA.

A verdade é que eu estava completamente indignada que um conteúdo que eu apostava demais havia feito residência numa bola de feno no deserto. 

Design by Gabi Teco, certificada em Paint Brush nos anos 1990

Foi nesse momento que eu percebi que o problema não era exatamente o post. O problema era a expectativa que vinha junto com ele. 

Quando a gente publica algo numa rede profissional hoje, não está apenas compartilhando uma ideia. 

Está, consciente ou inconscientemente, colocando em jogo a própria sensação de relevância: quem viu, quem reagiu, quem comentou, quem ignorou. 

De repente, aquilo que deveria ser apenas uma troca vira também um pequeno termômetro público de presença.

Foi aí que visibilidade começou a ser confundida com networking.

Visibilidade não é networking

Depois que as redes profissionais ficaram públicas, muita gente passou a acreditar que networking exige presença constante.

Mas presença não é o mesmo que conexão.

Se networking é posição na rede, como eu demonstrei na edição de quarta-feira passada, por que tanta gente acha que precisa performar presença o tempo todo?

A resposta curta é: porque as redes profissionais passaram a tornar visível algo que antes era invisível.

Agora lascou. 

Tenho poucas certezas, mas muitas hipóteses sobre o que acontece a partir dessa visibilidade compulsória que o LinkedIn passou a extrapolar: 

1. Visibilidade gera comparação social

Antes o networking acontecia nos bastidores, ninguém via quem você conhecia.

Hoje, além de conexões visíveis, nossas interações, comentários e posts podem ser observados em tempo real, oferecendo ao outro pistas sobre o nosso nível de troca e influência na rede.

Isso ativa um mecanismo clássico da psicologia social: comparação social.

Alain de Botton, no livro Desejo de status, diz que, quando o status se torna visível, as pessoas passam a monitorar constantemente sua posição em relação aos outros.

Aplicado ao LinkedIn, a visibilidade transforma interações em sinais públicos de relevância.

O primeiro motivo é, portanto, estrutural: quando relações ficam públicas, elas passam a funcionar como sinais de status.

2. Cultura de performance permanente

O segundo motivo é cultural.

Vivemos em um ambiente onde tudo vira performance pública: produtividade, felicidade, rotina, carreira, relações etc.

Byung-Chul Han, no livro A sociedade do cansaço, diz que a sociedade contemporânea transforma o indivíduo em um projeto permanente de otimização e exposição. (Já escrevi sobre cansaço nesta outra edição)

Ou seja: não basta trabalhar bem. É preciso parecer ativo, conectado e relevante.

3. Medo de desaparecer do radar

O terceiro motivo é psicológico. Quando oportunidades circulam por redes, surge uma ansiedade silenciosa: “Se eu não aparecer, as pessoas vão esquecer que eu existo.”

Esse fenômeno foi estudado por Michael Gervais no conceito de FOPO (Fear of People's Opinions).

É o medo de julgamento social que, por exemplo, leva as pessoas a comentarem por obrigação ou postarem só para manter presença constante, não necessariamente por conexão real.

Não vai acabar não?

Pra resumir:

Quando as relações ficam visíveis, elas deixam de ser apenas relações. Elas viram também sinais públicos de presença, relevância e status.

Isso explica por que tanta gente sente que precisa performar networking.

Tanta gente, incluindo eu mesma.

Não é porque eu analiso o fenômeno, que eu me excluo dele. Muito pelo contrário. 

Quanto mais afetada eu me sinto, mais vontade eu tenho de tentar entender o que me escapa. Sem esse papo de nós e eles.

Às vezes eu sou eles. Às vezes sou nós.

E às vezes escrevo para descobrir em que grupo estou e se ando em companhia.

Tem alguém aí?

Até segunda!

Gabi Teco

Sua vez: me conta o que ficou pra você desta edição?

Aqui eu facilito a sua vida, ó.

Escolha o início de uma frase, aperte o botão “responder” no seu e-mail e complete com outra ideia.

  1. (   ) Achei que todo mundo precisa saber que…

  2. (   ) Vou levar pra pensar essa coisa do/da…

  3. (   ) Li e fiquei igual a Gloria Pires (não consigo opinar) porque…

  4. (   ) Odeio múltipla escolha, então farei uma redação livre a partir daqui…

  5. (   ) NAD (Nada a declarar)

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Ah. Eu também produzo conteúdo em outras redes.
No Instagram eu penso em público sobre cotidiano, vida e trabalho.
No LinkedIn eu me dedico à traduzir o corporativês para a vida real de um jeito mais objetivo do que aqui na news.
Já em Daleland você conhece meu lado empreendedor. E no site Gabi Teco, o meu papel como mentora.
Vou adorar te receber em qualquer um destes canais! =)

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